Comportamento

Empregos renascentes

Japão quer estrangeiros trabalhando na indústria e nas obras para os Jogos Olímpicos — com salários mais baixos

Crédito: Rodrigo Reyes Marin

DISPUTA Muitas das vagas estão sendo abertas na indústria alimentícia, agora com concorrência forte de chineses, filipinos e coreanos (Crédito: Rodrigo Reyes Marin)

O Japão se recupera da crise econômica. A importância disso para a comunidade brasileira de descendentes de japoneses é enorme, mas algo frustrante. As obras para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 e o reaquecimento industrial estão levando à abertura de vagas para dekasseguis, como são chamados os trabalhadores estrangeiros no Japão. Na esteira da decisão, seria natural que os yonseis brasileiros (bisnetos dos imigrantes japoneses no Brasil) tivessem permissão para trabalhar temporariamente no país de seus antepassados. Mas, ao contrário dos nisseis e sanseis (filhos e netos dos imigrantes, respectivamente), acabaram preteridos por filipinos, chineses e coreanos, que se sujeitam com mais facilidade a salários baixos.

Mesmo contando com a aparente simpatia do primeiro-ministro Shinzo Abe, os yonseis latino-americanos estão sendo submetidos a restrições para conseguir o visto. A idade limite é de 30 anos, exige-se razoável conhecimento da língua e o auxílio de um “tutor” oficial para a adaptação. Além disso, eles só poderão permanecer por no máximo cinco anos no país. Esse pacote vale para as comunidades do Brasil, Peru, Argentina, Bolívia e Paraguai, além de Venezuela e República Dominicana, onde há pequenas colônias. Como resultado, em 2018 só dois yonseis brasileiros foram aceitos para estudar e trabalhar no Japão.

Pesado, sujo e perigoso

A comunidade japonesa no Brasil critica as medidas, já que os nisseis e sanseis estão envelhecendo, enquanto os mais jovens não ganham oportunidades de trabalho. “Nossa bandeira é a flexibilização”, diz Masato Ninomiya, do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador Estrangeiro (Cieate), em São Paulo. Enquanto isso, sanseis jovens como Renato Kurosaki seguem para o Oriente. Sem filhos e com menos de 30 anos, ele e sua mulher partiram antes do Natal para trabalhar na montagem de componentes eletrônicos. O contrato é de um ano e os salários somados são de R$ 14 mil mensais. Eles têm sorte. A maioria dos novos dekasseguis ganha R$ 3 mil, sem horas extras, para os trabalhos “três Ks”: kiken (perigoso), kitanai (sujo) e kitsui (pesado).