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Emily Lima explica saída do Brasil: ‘No Equador, somos tratadas igualmente’

Após pedir demissão da equipe feminina do Santos, Emily Lima, de 39 anos, escolheu um caminho alternativo para a carreira: a seleção equatoriana. Com o objetivo de classificar o país para o Mundial Feminino de 2023, a treinadora se surpreendeu com o profissionalismo encontrado no país vizinho e passou até por processo seletivo para assumir o cargo.

Em conversa por telefone com o Estado, a única mulher que participou recentemente do curso de Licença PRO da CBF falou sobre a atual missão, pediu mais reconhecimento aos profissionais brasileiros do futebol feminino e admitiu o desejo de comandar um time masculino.

Como é a rotina de treinadora do Equador?

Vou viver em Quito neste primeiro semestre. Fizemos um calendário para 2020 com a primeira parte focada nas categorias de base, para montar as comissões técnicas do sub-17 e do sub-20. E não seria o ideal fazer as coisas com pressa. Fico no comando das duas categorias para o Sul-Americano e depois volto todas as atenções para a seleção principal. A primeira data Fifa é em junho.

O que te motivou a aceitar o convite? Quais são os desafios?

A proposta de longo prazo me chamou a atenção. São três anos de contrato, com extensão automática de um ano se classificar para a Copa do Mundo de 2023, que é a grande missão do projeto. Tenho o desafio de fazer com que o futebol feminino evolua no Equador. Além disso, o projeto da contratação foi algo que nunca vivi como atleta nem como treinadora. Passei por uma seleção com 20 treinadores e treinadoras.

Como foi esse processo seletivo?

Foram várias etapas até chegarem a mim na última avaliação. Foi tudo muito profissional. Tive várias conversas com advogada, assistente social. Na reta final, eram reuniões quase semanais com o gerente geral, Gustavo Silikovich (ex-dirigente do River Plate). Falamos de parte técnica e de tática. Passei dois meses estudando o Equador para me preparar. Foi muito diferente, mas me engrandeceu demais. Senti que eles querem, realmente, fazer algo sério.

Recentemente, você participou do curso de Licença PRO da CBF para treinadores. Havia quantas mulheres além de você?

Nenhuma. Eram 63 pessoas, e só eu de mulher.

Esse cenário pode mudar?

Pode, sim. Mas não me chama a atenção. No handebol, no basquete e no vôlei femininos, a grande maioria é de treinadores homens. Por que no futebol tem que ter mais mulheres? É muito natural. Mas claro que a procura hoje é muito maior. Vai evoluindo. Em nenhuma modalidade é negativo ter mais homens. Precisamos de profissionais qualificados, isso sim. Errado é o homem ter oportunidade só por ser homem, sem ter capacidade.

O futebol feminino ainda está engatinhando no Brasil?

Sim. Poucas equipes destoam. O Corinthians, hoje, é um modelo de futebol profissional feminino. Tem Inter, Palmeiras, São Paulo, Ferroviária. O Santos, de todos esses, é o que está mais atrás. Posso dizer porque vivi lá. Não são contratações que farão um clube ser maior ou menor, mas as condições de trabalho que ele dá a atletas e funcionários.

A regra de impor a modalidade aos principais clubes é ideal?

Infelizmente, no Brasil só acontece assim. Mas, felizmente, as coisas estão andando. Sendo obrigado ou não, é preciso desenvolver o futebol feminino.

Sediar o Mundial de 2023 pode ajudar no processo?

Vou olhar somente para o meu umbigo: seria perfeito, porque a América do Sul ganharia uma vaguinha a mais para o Mundial (risos). Temos viabilidade, estádios, tudo. O Brasil, quando quer fazer, faz bem feito.

A CBF retarda o processo de renovação do futebol feminino no Brasil?

Não vou falar sobre esse tema. Atualmente, só falo sobre a renovação do Equador, e do apoio que estou tendo para trabalhar. Não sou eu que preciso me preocupar com a seleção brasileira feminina. Desejo sucesso a todas as meninas e à comissão. Tenho grande carinho por todas as atletas com quem trabalhei.

O relacionamento conturbado com as jogadoras mais experientes da seleção te atrapalhou? Marta disse que você “ataca” sempre que tem a oportunidade…

Não tive problema com nenhuma atleta. Dou minha opinião, não ataco ninguém. A democracia serve para isso.

A escolha de Pia Sundhage como treinadora da seleção foi acertada?

É uma grande treinadora. Eu a conheci na final do Paulista, trocamos ideias. Ela é muito aberta e humilde, e desejo todo sucesso do mundo. Mas temos profissionais dentro do futebol feminino brasileiro que poderiam ajudar muito mais, pelo conhecimento e pela vivência. Pena que não se valoriza o que temos no País. A Pia viveu uma realidade totalmente diferente, sempre com estrutura, com meninas que jogam desde seis anos de idade. O Brasil é o oposto.

Quem era o ideal?

Arthur Elias (técnico do Corinthians). A Tatiele Silveira (Ferroviária) também não está atrás. São duas pessoas com vasta experiência no futebol feminino, e que poderiam tranquilamente estar à frente da seleção.

A estrutura no Equador é adequada?

É uma nova gestão, com uma federação bem organizada, algo que não encontrei no Brasil. Dentro da federação, há um espaço para cada categoria do futebol feminino, do sub-17 ao profissional. Temos dois campos de grama natural muito bons, uma academia muito boa, hotelaria, piscinas… Tudo que precisamos para trabalhar. Aqui não existe diferença entre seleção masculina e feminina, somos tratadas igualmente. Tanto na federação, em Guayaquil, como na Casa da Seleção, em Quito.

Em que nível está o futebol de clubes no País?

Existe uma liga profissional com 18 equipes, além de outras duas divisões com 16 times cada. Nem todos são competitivos na Primeira, mas temos boas equipes. Antes de vir para a Casa da Seleção, fiquei alojada no CT do Independiente Del Valle. Vi algo muito grande. É uma das melhores equipes do Equador, com times de base e principal, e as atletas da base feminina utilizam a mesma estrutura da masculina. Assisti a um jogo do sub-20, equipe muito organizada, com treinadora mulher. E existem várias outras nos clubes daqui.

Recebeu sondagens de clubes masculinos antes de assumir o Equador?

Não, mas conversei com um clube asiático que me queria na equipe masculina sub-17 e na feminina principal. Meu foco era sair do Brasil.

Tem o desejo de trabalhar com equipes masculinas?

É um desafio que quero provar para entender se é, realmente, muito diferente trabalhar com homens. Não sei se depois do meu contrato com o Equador. É uma curiosidade de jogo, se eles entendem o que passo como conteúdo.

A que jogos você assiste quando está em casa?

No feminino, agora estou mais voltada para as seleções e aos clubes do Equador. No masculino, gosto muito dos campeonatos inglês e espanhol. Mas, nas folgas, muitas vezes estou com a comissão técnica. Fui autorizada a trazer na Casa da Seleção os treinadores das equipes das três divisões femininas, para entender melhor o futebol equatoriano.