Em pronunciamento, presidente diz que sente o que jamais sentiu

Crédito: Reprodução/YouTube

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Eram 20h30, mais ou menos, e ontem (2/6) cheguei à casa de um queridíssimo amigo para, na companhia de outro não menos queridíssimo amigo – e cozinheiro de prima! -, beber, conversar, rir, jantar (exatamente nessa ordem) e trocar um pouco desse mundaréu de afeto, represado pelo maldito coronavírus.

Havia meses que não nos víamos; na verdade, desde outubro do ano passado. E, para minha grata surpresa, ao tocar o interfone do prédio em que mora, na região central de Belo Horizonte, fui saudado (sem mandioca!) por gritos, fogos e sons estridentes, semelhantes a metal colidindo com metal. Poxa, pensei, que bacana.

Mas como alegria de pobre dura pouco, eu logo percebi que os gritos eram, na realidade, palavrões, e o som estridente era o de panelas sendo impiedosamente espancadas às janelas dos edifícios ao meu redor. Jair Bolsonaro, o verdugo do Planalto, consegue ser inconveniente até quando não se espera.

O panelaço que me frustrou a ilusão da recepção de Galo, ops!, de gala, ocorreu em homenagem ao presidente da República, que, com sua política negacionista e homicida, aliada à incapacidade administrativa e irrestrito apoio ao vírus, ajudou a produzir um Everest de 500 mil mortos pela Covid-19 no País.

Após horas, que pareceram minutos, mas que encheram meu ‘tanque da carência afetiva’ pelos próximos quatro meses, fui-me embora ao encontro do aconchego dos braços de Morfeu. Pura ilusão. A curiosidade falou mais alto e lá foi o bobão, aqui, assistir ao devoto da cloroquina ler e falar como criança alfabetizando.

Como disco arranhado, o amigão do Queiroz repetiu a pregação suicida contra o distanciamento social; torceu números e dados a seu favor; prometeu vacinar o País inteiro ainda neste ano; defendeu a realização da ‘Cova América’ no Brasil e mentiu como de costume. Porém, o ‘ponto alto’ aconteceu logo no início.

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Após o protocolar “boa noite” (ao menos isso ele conseguiu ler e falar como um adulto alfabetizado), o maníaco do tratamento precoce mandou ver: “sinto profundamente cada vida perdida em nosso País”. O quê? Truco, ladrão! Não sente coisa nenhuma. Muito menos profundamente. Conta outra, rapá!

O que o pai do senador das rachadinhas e da mansão de seis milhões de reais sente em relação às mortes? Apenas desprezo. E em relação aos enlutados? Uma completa falta de empatia e respeito: “E daí? Não sou coveiro. Se morrer, morreu. Vão chorar até quando? Maricas”. Argh!, que sujeito asqueroso.

Resultado: Morfeu desistiu de mim. Eu desisti de atacar a caixa de Bis. O ‘amigo barra cozinheiro’ desistiu de ir trabalhar amanhã cedo, ou melhor, hoje. O ‘amigo barra anfitrião’ desistiu de tentar outra vez. E o amigo dele, agora meu amigo também, idem. Tão novos e tão fraquinhos, coitados.

O único que não desistiu, nem nunca desistirá, pois indesistível, como imbroxável e incomível, de mentir, é o sociopata aboletado na Presidência da República. Aliás, nem de mentir nem de infernizar minha vida. Vá ser ‘espalha bolinho’ assim lá no cafofo de Atibaia, do amigo advogado que mocava o Queiroz.

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Sobre o autor

Ricardo Kertzman é blogueiro, colunista e contestador por natureza. Reza a lenda que, ao nascer, antes mesmo de chorar, reclamou do hospital, brigou com o obstetra e discutiu com a mãe. Seu temperamento impulsivo só não é maior que seu imenso bom coração.


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