Comportamento

Em Minneapolis, refugiados africanos choram o fim do “sonho americano”

Em Minneapolis, refugiados africanos choram o fim do “sonho americano”

Homem passa de patinete em frente a um mural em Minneapolis em 30 de maio de 2020. - AFP

Seu “sonho americano” já estava gravemente ferido, mas a morte de George Floyd causou-lhe um golpe fatal.

Indignados com a violência policial e o racismo, muitos refugiados africanos estão marchando com seus “irmãos” em Minneapolis há uma semana.

“Vim para cá porque meu país estava em guerra e acabei com duas crianças que têm medo porque não são brancas”, conta chorando de raiva Tiha Jibi, que fugiu do Sudão do Sul aos 15 anos de idade.

Sua família teve muita dificuldade em deixar seu país. Mas acreditava que nos Estados Unidos encontraria a paz, a democracia e a igualdade que não existe na África.

“Era mentira, temos que encará-la”, diz essa mãe, ao participar de muitos eventos organizados em homenagem a George Floyd, um afro-americano de 46 anos que morreu na segunda-feira passada durante uma prisão por policiais brancos.

“Sou refugiada, mas não sou branca”, diz.

O estado de Minnesota, onde fica Minneapolis, tem a maior taxa de refugiados per capita nos Estados Unidos: abriga 2% da população americana, mas 13% dos refugiados presentes no país, segundo dados do censo.

Entre eles, uma grande comunidade do Chifre da África, etíopes e somalis, fáceis de distinguir nos protestos pelas roupas coloridas usadas pelas mulheres.

– “Desumanizados” –

Mais uma pessoa que clama por justiça em frente a uma delegacia de polícia, Deka Jama, uma somali de 24 anos que chegou aos Estados Unidos em 2007, reclama que sofre várias discriminações.

Antes de vir para os Estados Unidos, “pensávamos que todos seríamos iguais, que não seríamos julgados por nossa religião, nossa cor, nossas roupas. Mas não foi assim que fomos recebidos”, diz ela, envolta em um véu devido à sua fé muçulmana, como seus amigos que a acompanham.

Hoje, essa jovem se sente muito próxima dos descendentes de escravos, americanos por gerações: “Há algo que nos une: somos todos desumanizados” por parte da população, afirma.

No entanto, a comunidade somali em Minnesota tem um motivo de orgulho: Ilhan Omar, nascida em Mogadíscio há 37 anos e naturalizada americana, foi eleita para a Câmara dos Representantes em 2018.

Mas ela também foi vítima de racismo, ameaças de morte, campanhas difamatórias. Em meados de 2019, o presidente Donald Trump até ordenou que “voltasse ao seu país”, fingindo não saber que seu país é agora os Estados Unidos.

Na semana passada, Omar foi convidada muitas vezes a programas de televisão para comentar sobre a morte de Floyd. E continuou apontando que, além da violência policial, é necessário abordar todas as desigualdades no país.

– Pobreza –

“Muitas pessoas estão sofrendo miséria econômica e social”, disse Omar, uma figura da ala esquerda do Partido Democrata, no domingo.

Segundo o site de dados demográficos Minnesota Compass, as famílias africanas no estado são particularmente afetadas pela pobreza.

Em 2016, 12% da população de Minnesota vivia abaixo da linha de pobreza. A porcentagem foi de 31% entre os etíopes e 55% entre os somalis.

Para muitos refugiados, essa é outra face do “sonho americano”, a forma de ascensão social, que se deteriorou com o tempo. E os manifestantes durante os protestos nos dias de hoje não ajudaram com a queima de empresas, algumas das quais pertenciam a imigrantes.

“Estou muito decepcionado, muito decepcionado”, diz Ahmed, etíope que não quer dar seu sobrenome, olhando para o esqueleto enegrecido de um prédio.

Para ele, como muitos outros, a maior preocupação são as crianças. Uma etíope que pediu anonimato disse que tinha quatro filhos e que, quando adultos, eles poderiam sofrer assédio policial, incluindo o destino de George Floyd.

“É por isso que temos que apoiar esse movimento”, disse, encorajando manifestantes que estavam marchando. “Temos que fazer isso para acabar com o racismo, para o futuro.”

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