Saúde

Em meio à Covid-19, epidemia de diabetes ameaça comunidade indígena Xavante

Lucas Amado, da Agência Einstein

Mudanças nos hábitos alimentares e de vida estão causando uma epidemia de diabetes entre o povo Xavante. E isso representa uma ameaça ainda maior em meio à pandemia da Covid-19. A situação foi descoberta por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de São Paulo (USP), após a análise de retina feita em membros da comunidade indígena localizada no leste do Mato Grosso. Por meio dos exames, foi identificada a alta prevalência de diabetes tipo 2 e, inclusive, com distúrbios oculares causados pela doença.

“Noventa e cinco dos 157 xavantes que examinamos [60,5%] tinham diagnóstico de diabetes”, conta Fernando Korn Malerbi, pesquisador de pós-doutorado do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Unifesp, e autor do estudo publicado no jornal Diabetes Research and Clinical Practice.

A constatação do quadro diabético coloca um novo agravante a uma população naturalmente mais vulnerável à Covid-19, devido ao histórico de pouco contato biológico com patógenos com os quais os não-indígenas já lidaram. De acordo com dados do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), já foram notificados mais de 870 casos da doença entre os Xavantes, com 46 óbitos. Atualmente, há pouco menos de 20 mil xavantes no Brasil, segundo informações do Censo.

“Os xavantes eram tradicionalmente caçadores-coletores, mas estão mais sedentários. Eles também mudaram sua dieta nas últimas décadas, consumindo novos alimentos com alto teor de açúcar”, acrescenta Malerbi. Em 2016, outro estudo da Universidade Federal de Uberlândia havia mostrado que dois terços dos integrantes daquela comunidade sofriam de síndrome metabólica e obesidade.


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Para o diagnóstico, foi utilizando um sistema de fotografia de retina controlado por smartphone, em que os pesquisadores conseguiram analisar o quadro do povo indígena. Chamado de “Eyer”, o retinógrafo portátil é um dispositivo óptico que produz imagens precisas da retina para detectar doenças do fundo do olho a um custo muito menor do que os métodos convencionais. Além disso, tem a vantagem de ser utilizável para diagnóstico remoto por oftalmologista via telemedicina.

“Quando um dano de retina sugerindo risco de cegueira foi observado pelo retinógrafo portátil, informamos os indivíduos por meio de um intérprete e os encaminhamos ao serviço de saúde indígena local para acompanhamento e tratamento”, explica o autor do estudo.

Dos 95 indivíduos com diabetes submetidos ao protocolo de imagem ocular completo, 23 (24,2%) apresentavam imagens não classificáveis devido às opacidades da mídia causadas pela catarata, impossibilitando a avaliação de retinopatia em pelo menos um dos olhos.

As imagens dos 72 indivíduos restantes (75,8%) foram boas o suficiente para a retinopatia diabética ser detectada. Os pesquisadores descobriram que 16 tinham a doença, sendo que sete haviam alcançado um estado grave o suficiente para ter perda de visão.

Além dos Xavante, os pesquisadores também examinaram as retinas de 33 pessoas da comunidade Bororo, ameaçada tanto pela Covid-19 quanto pelas queimadas que destruíram grande parte do Pantanal neste ano. Descobriu-se então que sete integrantes dos bororos tinham diabetes. Um deles foi diagnosticado com retinopatia diabética grave e encaminhado a um serviço de saúde para tratamento.

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Grupos de risco

Caracterizada pelo aumento de glicose no sangue, a diabetes pode desenvolver, com o tempo, outros problemas de saúde, como a retinopatia – que pode levar à cegueira, se não tratada –, problemas cardiovasculares ou nos rins. Estes, inclusive, já podem se manifestar ainda na pré-diabetes.

A diabetes é uma das doenças que enquadram a população diagnosticada como pertencentes ao grupo de risco do Covid-19. O Brasil é o quarto país com maior número de diabéticos no mundo, atrás apenas da China (1º), Índia (2º) e Estados Unidos (3º). De acordo com dados da Federação Internacional de Diabetes, 12,5 milhões de brasileiros com idade entre 20 e 79 anos tinham a doença em 2017.

(Fonte: Agência Einstein)

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