Em meio a ‘Brexit’, discurso antieuro perde espaço na Itália

SÃO PAULO, 02 MAR (ANSA) – Poucos arriscam dizer quem será o vencedor das eleições de 4 de março na Itália, mas uma coisa já é possível afirmar sobre a campanha de 2018: o discurso antieuro perdeu espaço no país, que é um dos fundadores da União Europeia.   

Quando Matteo Renzi renunciou à cadeira de primeiro-ministro, em dezembro de 2016, Bruxelas entrou em estado de alerta para o risco de eleições antecipadas, que poderiam levar ao governo o Movimento 5 Estrelas (M5S), legenda antissistema que propunha um plebiscito sobre a permanência italiana na zona do euro.   

No entanto, um ano se passou, as eleições não foram antecipadas, e o discurso contra a moeda comum e a própria União Europeia perdeu apelo, em meio às arrastadas negociações sobre o “Brexit”, que quase derrubaram a premier britânica, Theresa May.   

As pesquisas apontam que uma coalizão com a ultranacionalista e historicamente eurocética Liga Norte é favorita para vencer as eleições e que o M5S deve se tornar o partido mais votado do país, mas esse cenário parece não assustar a UE.   

Disputando em coalizão com Silvio Berlusconi, a Liga teve de moderar o tom, e seu líder, Matteo Salvini, agora se diz até “europeísta”. Em entrevista à ANSA na semana passada, o secretário federal do partido ultranacionalista afirmou que quer “permanecer na Europa, mas com a Itália protagonista”.   

Ainda que ele cobre a revisão dos tratados europeus, sua postura representa uma mudança histórica para alguém que dizia que a UE deveria ser “abatida”. Além disso, o indicado a primeiro-ministro por Berlusconi é ninguém menos do que o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, um europeísta convicto.   

M5S – O mesmo caminho foi percorrido pelo Movimento 5 Estrelas, que tinha como um dos pilares de seu programa a convocação de um plebiscito para tirar a Itália da eurozona – o slogan da proposta era “Você pode escolher entre viver ou morrer”.   

No entanto, nos últimos meses, o líder político do M5S, Luigi Di Maio, passou a defender a permanência do país na área da moeda comum, alegando que o enfraquecimento do “eixo franco-alemão” abre espaço para Roma aumentar sua influência na União Europeia.   

Uma eventual saída da Itália da UE ou até mesmo da zona do euro seria catastrófica para o bloco. Ao contrário do Reino Unido, que nunca se integrou plenamente à comunidade europeia, o país da bota é uma de suas fundadoras, ao lado de França, Alemanha, Bélgica, Holanda e Luxemburgo.   

O ato de criação da Comunidade Econômica Europeia (CEE), embrião da UE, foi assinado em Roma, em 25 de março de 1957. Um rompimento com Bruxelas representaria perdas em termos financeiros e políticos, mas também um prejuízo simbólico irreparável para o bloco. (ANSA)