Em meio a 610 mil mortes apenas por Covid, por que Marília nos comove tanto

Crédito: Reprodução / TV Globo

Marilia Mendonça (Crédito: Reprodução / TV Globo )

Morre gente todos os dias. E como morre! Nos últimos quase dois anos aprendemos a contar diariamente o número de mortos por Covid. Nunca contamos a quantidade de mortos por, sei lá, atropelamento. É curiosa a seletividade humana.

Estatisticamente falando, somos especialistas em óbitos. Sabemos quantas pessoas passam desta para uma melhor, todos anos, por causa de tabaco, acidente de trânsito, assassinatos e quaisquer motivos que valham estudos científicos.


Não acredito no Deus criador da Terra e do Universo. Nem mesmo no Deus criador da vida, e não faço diferença, nesse caso, de vida humana, selvagem, vegetal, marinha, unicelular ou o escambau. Viveu, tá vivo, pode morrer, tá valendo.

MORTE

Por isso não atribuo a Deus nem o culpo por nenhuma morte. Até porque, na boa, se há uma invenção mais maldita do que essa, eu desconheço. A separação de corpos – e de corações – que se amam é de uma crueldade insuportável.

Toda e qualquer morte nos choca, comove e causa algum tipo de dor, ainda que não seja tão fácil compreender e aceitar isso. Sim, porque somos todos mortais e, ao nos deparar com a realidade que nos espera, não saímos ilesos.

Ao nascer, o ser humano, dotado de consciência, inicia sua angustiante contagem regressiva de tempo de vida. E quanto mais racional o bicho-homem, menos crédulo em crendices, mais angústia a cada volta (ano) do relógio biológico.

DOR

Perdi minha mãe faz quase um ano. Apesar da idade avançada – dela e minha – não consigo passar um dia sem sofrer sua ausência, em alguma medida. Para além das relações, há um troço chamado proximidade. Quanto mais próximo, mais dor.

E proximidade não significa, necessariamente, parentesco ou amizade, por isso escrevi ‘para além das relações’. Ayrton Senna não era meu amigo, mas sofri sua morte miseravelmente, e assim também ocorreu quando morreram os Mamonas Assassinas.

O Selmo Geber, sim, era meu amigo. Muito mais do que isso! Faz quase dois meses que falta um tijolo na minha parede, já tão rachada e desgastada por 54 anos de uso intenso. Não dói como a minha mãe, claro, mas dói pra caramba; mais que o suportável.

MARÍLIA

Sinto muito pela vida que não terá a jovem cantora. Sinto muito pela dor que sua ausência trará aos fãs. Sinto muito pela saudade que sentirão seus parentes e familiares e também seus amigos mais próximos e queridos.

E como sinto muito, meu Deus (olha Ele aí!), pela criança que nem sequer chegou a saber o que é ser filha e ter uma mãe. Putz! Eu tive a melhor mãe que poderia desejar. Pobre dessa criaturinha de dois aninhos, pois não terá a sua.

Pronto. Tá aí! Formou-se o vínculo da tal proximidade, e agora sofro pela morte da moça. Em verdade, sofro pela vida da órfã. Como pai, não suporto pensar na dor da minha filha ao, um dia – e espero que muito distante! – me perder.

Meus sentimentos também ao caro Rabino Nissim Katri e toda sua família. Não têm sido dias fáceis para muita gente.






Sobre o autor

Ricardo Kertzman é blogueiro, colunista e contestador por natureza. Reza a lenda que, ao nascer, antes mesmo de chorar, reclamou do hospital, brigou com o obstetra e discutiu com a mãe. Seu temperamento impulsivo só não é maior que seu imenso bom coração.


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