Comportamento

Em Israel, pandemia leva ultraortodoxos a se afastarem de suas comunidades

Em Israel, pandemia leva ultraortodoxos a se afastarem de suas comunidades

Judeus ultraortodoxos em sala de aula, separados por um plástico como medida de prevenção contra a covid-19, em 25 de outubro de 2020 - AFP

“O corona me deu a oportunidade de me afastar deste mundo”. Assim como vem acontecendo com outros judeus ultraortodoxos, a crise sanitária atual se transformou em uma crise espiritual para Yoav, um israelense que decidiu escapar do rigor de sua comunidade para conhecer uma vida diferente.

Durante os dois confinamentos ordenados pelas autoridades israelenses para conter a pandemia do novo coronavírus, na primavera passada (outono no Brasil) e depois em setembro, este jovem de 22 anos ficou recluso com seus pais.

Yoav, que prefere não revelar seu sobrenome, não pôde mais ir à yeshiva (escola religiosa) e se viu confinado com um pai intransigente quanto à prática religiosa.

“As tensões eram permanentes”, disse ele à AFP.

“Há anos eu sabia que essa não era a vida que eu queria, e aí foi que eu entendi que precisava ir embora”, contou.


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Ele então decidiu recorrer à associação Hillel, que desde 1991 tem ajudado os jovens ultraortodoxos que querem deixar suas famílias para viver de outra forma.

Há três meses, Yoav vive com outras 13 pessoas, de 18 a 25 anos, em um centro de acolhida da organização em Jerusalém, financiado pelo Ministério de Assuntos Sociais. Nessa enorme casa, os jovens recebem ajuda psicológica, financeira e cursos de recuperação.

“Eles não sabem nada sobre o mundo moderno, não sabem nada sobre o outro sexo. Você tem que ensinar tudo a eles”, explica a diretora do centro, Etty Eliahou.

“Estamos aqui para ajudá-los a encontrar seu lugar no mundo”, completa

– Os que “temem a Deus” –

Segundo um estudo do Instituto Israelense para a Democracia publicado em 2019, em torno de 14% dos judeus ultraortodoxos em Israel deixam a religião a cada ano, a maioria deles entre 19 e 25 anos.

Os haredim (que “temem a Deus” em hebraico, ou ultraortodoxos) representam perto de 12% dos nove milhões de israelenses. Vivem em um ambiente fechado, respeitando de modo literal sua interpretação do judaísmo.

A maioria dos homens estuda textos sagrados todo o dia. As mulheres vivem separadas dos homens até o casamento, que é celebrado bem cedo. São elas que costumam trabalhar para o marido.

Cerca de 350 haredim buscam a associação Hillel anualmente, mas as solicitações dobraram em 2020 com a pandemia, explica Yair Hess, diretor da organização, à AFP.

Segundo ele, o fechamento das escolas religiosas fez muitos jovens passarem mais tempo com suas famílias, criando um fenômeno de “panela de pressão” que irrompe em muitos lares.

“Perdi muitos anos e finalmente estou vivo”, desabafa Yoav, que agora trabalha para o Ministério dos Transportes e faz cursos de matemática e de inglês, dos quais foi privado durante sua formação religiosa.

Efrat também mora neste abrigo em Jerusalém. Esta jovem de 21 anos quer se tornar maquiadora profissional, para “embelezar a vida”.

Ela deixou sua família, muito numerosa, uma primeira vez, mas teve de voltar para a casa quando a pandemia começou. Na crise, ela perdeu seu emprego e não podia mais pagar o aluguel.

A jovem descreve essa volta à família como um “pesadelo”, o qual ela relata, aos prantos e sem querer dar muitos detalhes.

Sua mãe a “expulsou”, e Efrat se viu na rua, antes de ser hospitalizada por causa de seu diabetes. Na Hillel, ela descobriu “um novo mundo”.

“Aqui, descobri a não ser tão ingênua, aprendi a falar com os homens e do que sou capaz de fazer na vida”, conta à AFP.

“Paradoxalmente, o coronavírus me salvou”, afirma a jovem, com um tímido sorriso.

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