Artes Visuais

Em ficção, não se cometem crimes

Em itinerância no Recife, a primeira exposição de Adriana Varejão no Nordeste enfoca a antropofagia e propõe um revés da história colonial

Crédito: Divulgação

COR DE SANGUE Adriana Varejão contempla uma das referências de seus trabalhos, a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, em Cachoeira (BA) (Crédito: Divulgação)

ADRIANA VAREJÃO – POR UMA RETÓRICA CANIBAL/ Museu de arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM, Recife, PE/ até 8/9

Chuvosa e enfeitada para a festa de São Pedro, Recife inaugurou na sexta 28/6 a primeira individual que Adriana Varejão no Nordeste. Para este contato inicial com o já vasto percurso da artista carioca, a curadora Luisa Duarte trabalha com a espinha dorsal de sua operação artística desde os anos 1990: o vínculo canibal com o barroco brasileiro e sua retórica persuasiva. “Se o método rendeu obras e discursos suntuosos a favor da narrativa cristã do projeto de colonização europeu, a retórica canibal de Varejão se apresenta como um contraprograma”, aponta Duarte no texto curatorial. Sobre as cerca de 25 obras expostas no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Mamam) paira um paradoxo que oscila entre aquilo que se consome como história e aquilo que não pode mais ser tragado como tal.

FRAGMENTO “Ruína de Charque Humaitá” (2001), de Adriana Varejão (Crédito:Divulgação)

A grande marca da exposição é a ferida (histórica), que irrompe da superfície da tela com violência em obras como “Parede com incisões à la Fontana” (2000) e “Língua com Padrão Sinuoso” (1998). Abrindo a exposição, “Mapa de Lopo Homem II” (1992-2004) traz uma ferida exposta: nessa releitura do planisfério feito pelo cartógrafo português em 1519, o continente africano sangra. Na sequência, são apresentados panoramas e paisagens que informam o espectador sobre os cenários onde se passam as histórias contadas por Adriana Varejão: de Macau a Vila Rica. Aqui está uma obra seminal de sua crítica decolonial, “Proposta para uma catequese – Parte I díptico: Morte e esquartejamento” (1993). A pintura se apropria de cacos de cenas narradas pela azulejaria de igrejas barrocas de Salvador, Recife e Olinda, e de fragmentos de gravuras de Theodore de Bry sobre canibalismo no Brasil colônia. Se Bry pinta os nativos brasileiros como selvagens que devoram por prazer, Varejão reconfigura a história, aproximando a narrativa cristã da antropofagia, em fragmentos originários de endereços diferentes: Cristo no altar de um ritual canibal e a frase em latim do Evangelho de São João: “O que come a minha carne e bebe o meu sangue, esse fica em mim, e eu nele”.

Pólvora

Visitada por historiadores como Lilia Schwartz, a obra de Varejão é vinculada aos estudos decoloniais – vertente teórica insipiente nos anos 1990, quando a artista começou a depurar sua critica. Com a inversão da lógica do discurso colonizador, essa critica pode ser pólvora. Isso é explícito em “Filho bastardo: cena de interior” (1992-95), que não está na exposição, mas representa coitos de padres e senhores de engenho com mulheres negras – colocando, no papel do bárbaro, o colonizador que violenta. “Quando você muda a perspectiva, muda a história”, diz Adriana Varejão a Istoé. “A história é feita sempre a partir de um ponto de vista sobre o outro. Na medida em que você incorpora outras visões, tudo se inverte. São esses processos que esse trabalho revela, mais do que uma culpabilização do europeu. Ele fala de encontros, às vezes violentos”, pondera.

Incontornável, porém, é indagar por que no Brasil uma cena de zoofilia teve poder de gerar mais polêmica (no caso da censura à exposição “Queermuseu”, em Porto Alegre, 2017) do que uma cena de estupro. “Se criou um factoide ali. Não acredito que a polemica saiu da imagem do trabalho, mas veio através de um discurso que usou aquela imagem, e outras, pra se construir”, diz ela. “No campo da ficção não se comete crimes”.

A exposição “Por uma retórica canibal” passou pelo MAM Bahia, em Salvador, e é fruto de um projeto da galeria Almeida e Dale de levar a importante produção artística contemporânea para cidades fora do eixo Rio-São Paulo, fomentando o interesse pela arte, a formação de público e o desenvolvimento de cenas locais. “Essa é uma escolha pessoal, em um momento de falência das instituições brasileiras”, diz Varejão.

Roteiros

LIBERTÁRIO “Passista”, de Juventino Gomes (Juju), documenta as origens do frevo (Crédito:Divulgação)


Frevo, arte quase marcial

FAZ QUE VAI – Bárbara Wagner e Benjamin de Burca/ Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE/ até 1/9

O frevo, intitulado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco, em 2012, nasceu na linha de frente dos cortejos carnavalescos do Recife, na virada do século XIX para o XX. Seus passos velozes, “fervidos” (daí o título frevo, corruptela
de “fervo”) foram inventados por corpos capoeiristas, praticando movimentos desafiadores para abrir caminho na multidão. “Faz que Vai” (2015), primeira colaboração da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, recupera essa origem libertária, quase marcial, do frevo. O ritmo é um código de afirmação política para os quatro dançarinos do filme.

Adquirida em 2018 para a coleção da Fundação Joaquim Nabuco, a obra é hoje exibida ao lado de documentos — fotográficos, audiovisuais, sonoros e textuais –, também pertencentes à coleção, que foram usados pelos artistas na pesquisa prévia ao trabalho. “Diante do progressivo apagamento da urgência libertária que o frevo evocava, o trabalho reclama, para ele, um outro destino: tornar-se lugar de afirmação de alteridades e de disputa pela visibilidade de corpos negros, periféricos e não confirmados a classificações estanques de gênero”, diz o curador Moacir dos Anjos. PA