O deputado federal Gilberto Nascimento (PSD-SP) superou Otoni de Paula (MDB-RJ) e será o novo líder da bancada evangélica no Congresso Nacional, uma das maiores do Legislativo. Foram 117 votos para Nascimento contra 61 do deputado carioca.
A disputa pela liderança da bancada é inédita desde a formação do grupo. Antes, o pleito era decidido por aclamação após um acordo entre os parlamentares.
Nascimento era apoiado pela cúpula bolsonarista e teve o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que atuou nos bastidores para decretar a vitória do paulista. Otoni era o candidato apoiado pelos petistas, após a sinalização do deputado, ex-bolsonarista, a Lula no fim do ano passado.
A vitória de Gilberto Nascimento deve dificultar as negociações do governo em pautas ideológicas e aumentar a força do bolsonarismo em pautas polêmicas, como o PL do Aborto.
A eleição de um novo líder, antes prevista para ocorrer em dezembro de 2024, foi adiada após pedidos de impugnação apresentados por Nascimento e Greyce Elias (Avante-MG), com base em um dispositivo do regimento interno do bloco. Para além do rigor formal, no entanto, o adiamento refletiu um cenário de acirramento.
Fato é que a FPE ficou mais sujeita a atritos desde o início do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2023. Embora esteja alinhada à direita — somente 21 dos 219 integrantes são de partidos de esquerda —, o grupo costumava aderir ao governismo na mesma medida em que lideranças pentecostais, como o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e o bispo Edir Macedo, presidente da Igreja Universal do Reino de Deus, o faziam nos outros mandatos deste mesmo Lula.
Sob a gestão de Jair Bolsonaro (PL, de 2019 a 2022), contudo, essas mesmas lideranças aderiram a um discurso mais ideológico, e o próprio segmento social se tornou mais resistente ao petismo. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 14 de fevereiro, o governo federal é aprovado por 21% dos evangélicos.
O petista até buscou fazer acenos ao grupo nos dois anos de mandato — sancionou o Dia Nacional da Música Gospel com um louvor no Palácio do Planalto —, mas o movimento foi pouco expressivo e o manteve afastado de eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, maciçamente aderidos por políticos de direita. No período, Silas Câmara (Republicanos-AM) e Eli Borges (PL-TO) se dividiram na liderança do bloco e mantiveram, no geral, uma postura mais moderada.
Mas foi o vice-líder da bancada, Otoni de Paula, quem protagonizou os principais movimentos de aproximação com o Planalto. Ex-bolsonarista convicto, o emedebista e pastor da Assembleia de Deus de Madureira orou por Lula, apoiou a reeleição do prefeito Eduardo Paes (PSD) no Rio de Janeiro e pregou moderação. As ações lhe renderam a pecha de lulista, o que abriu resistências na FPE e levou à ruptura que se expôs na disputa desta terça-feira.
Ao PlatôBR, Otoni negou a alcunha. “Os que dizem isso são os mesmos que querem transformar a frente parlamentar em um puxadinho do bolsonarismo. A bancada evangélica não deve atender nem aos interesses do bolsonarismo nem do lulopetismo”, afirmou.
A negativa não cola entre boa parte dos colegas. O deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do partido de Bolsonaro na Câmara e ex-coordenador da FPE, disse à IstoÉ que o parlamentar “exagerou” nas falas direcionadas a Lula, que faz um governo “divorciado dos valores cristãos”. “A postura do deputado foi exagerada e desconectada da realidade do segmento evangélico”, declarou.
Dessa cisão, Gilberto Nascimento ascendeu. Apoiado por Malafaia, Sóstenes e outras lideranças associadas à direita radical, o deputado paulista prefere o “caminho do meio” e também nega associação ao bolsonarismo. À IstoÉ, afirmou em dezembro ser um homem “do diálogo” e defendeu que o bloco atue por “interesses comuns” aos evangélicos, lamentando o racha que precedeu a escolha de um novo líder.
Conforme reportou a coluna de Guilherme Amado, o bloco crê no favoritismo de Nascimento. O status é afiançado não apenas pela rejeição a Otoni, mas por um histórico de atuação parlamentar pela comunidade — em 1994, como vereador da capital paulista, conseguiu excluir cultos religiosos da fiscalização da Lei do Silêncio promovida pela prefeitura — e pelo trânsito sólido na FPE, da qual foi um dos fundadores.
A candidatura de Greyce Elias, por sua vez, tem menor projeção. A atuação da parlamentar é moderada e não mobiliza maiores acirramentos em relação a Lula ou a Bolsonaro. Embora as pesquisas apontem que a maior parte das instituições evangélicas brasileiras são frequentadas por mulheres, o bloco nunca foi liderado por uma.