Edição nº2578 24/05 Ver edições anteriores

Em defesa dos isentões

As eleições acabaram há mais de três meses, mas a caça aos isentões continua, agora dentro do governo brasileiro. “Isentão” é como os bolsonaristas costumam chamar quem não adere por completo a tudo o que o seu messias, o presidente Jair Bolsonaro, diz e defende. O termo é usado de maneira pejorativa, como se a opção por não se posicionar de maneira radical a favor de uma ideia ou de um movimento político fosse um ato covarde, vil e imoral. Na campanha, os seguidores do então candidato do PSL chegaram a dividir os isentões em “de esquerda” e “de direita”. Isentão de esquerda era quem dizia não apoiar o PT, mas se recusava a votar em Bolsonaro. Os eleitores de Ciro Gomes, por exemplo, foram tachados de isentões de esquerda. Já o isentão de direita era a pessoa que se assumia como antipetista e a favor de políticas econômicas liberais, e que podia até declarar o voto em Bolsonaro, mas com ressalvas. Para a patrulha bolsonarista, não podem existir ressalvas. É preciso comprar todo o pacote.

Os isentões agora estão sendo defenestrados em alguns ministérios. O das Relações Exteriores é um deles, pois o chanceler Ernesto Araújo se esforça para demonstrar apego aos ideais que o levaram a ser escolhido para o cargo. Entre a eleição e a posse, Araújo prometeu livrar o Itamaraty do “marxismo cultural”. Um grande exagero, pois mesmo durante o período da política externa “altiva e ativa” — na realidade, desastrosa — dos governos do PT, eram poucos os diplomatas que podiam ser identificados como petistas de carteirinha.

Em dezembro, o tratamento desrespeitoso que Araújo estava dispensando a seus colegas levou o diplomata Nestor Forster Júnior, que ele havia nomeado para ser seu chefe de gabinete, a se queixar. Araújo se sentiu contrariado e cancelou sua nomeação. Detalhe: foi Forster quem o apresentou a Olavo de Carvalho, o ideólogo do bolsonarismo que influenciou na sua escolha como chanceler. Como bom diplomata, porém, Forster quis exercer a moderação, e pagou por isso.

Desde os atentados de 2001, nos EUA, o estudo do radicalismo avançou muito, graças à necessidade de se entender o comportamento dos terroristas islâmicos. Todo radical, seja qual for sua ideologia, caracteriza-se por: 1) acreditar que a humanidade pode ser corrigida e que forças poderosas conspiram contra os detentores da verdade; 2) buscar obsessivamente a pureza ideológica; e 3) almejar a glória e o reconhecimento dos pares. A história mostra que, quando o radicalismo se sobrepõe à moderação, as coisas nunca acabam bem. O mundo precisa de isentões.

Para a patrulha bolsonarista, não podem existir ressalvas. É preciso comprar todo o pacote

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Diogo Schelp

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