Os peruanos vão às urnas neste domingo, 12, para escolher um novo presidente, a nova composição dos 130 assentos da Câmara Federal e, pela primeira vez em 30 anos, um recém-recriado Senado com 60 cadeiras. Dos 31 milhões de habitantes do país, cerca de 27 milhões estão aptos a votar.
Pesquisas apontam que a candidata de direita Keiko Fujimori – filha do ex-ditador Alberto Fujimori – lidera com uma pequena vantagem, seguida de perto por ao menos três adversários: o ultraconservador Rafael López, o empresário de mídia Ricardo Belmont – ambos ex-prefeitos de Lima – e o ex-comediante Carlos Álvarez.
+ Peru destitui presidente José Jerí
Mas, num cenário congestionado, nenhum deles, porém, tem mais do que 15% das intenções de voto, o que praticamente confirma um segundo turno no dia 7 de junho.
Há um recorde de 35 candidatos, o que gera muitas dúvidas entre os eleitores, a exemplo da comerciante Marlene Jimenez, que não sabe em quem vai votar: “Eu vi a cédula e, sinceramente, me deu dor de cabeça”.
As pesquisas também apontam que 13% dos eleitores estão indecisos, o que faz com que um “segundo escalão” de candidatos também não possa ser ignorado, mesmo que determinado candidato tenha apenas cerca de 5% das intenções de voto, segundo Nicolas Watson, da consultoria Teneo.
Combate à corrupção
Um dos temas centrais da campanha eleitoral é o combate à corrupção: atualmente, quatro ex-presidentes estão presos:
Alejandro Toledo (acusado de lavagem de dinheiro), Pedro Castillo (tentativa de golpe de Estado) e Ollanta Humala (corrupção), Martín Vizcarra (corrupção).
Antes deles, Alberto Fujimori cumpriu 16 anos de prisão por violações de direitos humanos e morreu em 9 de novembro de 2024 após ser libertado por razões humanitárias.
Além deles, o ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski chegou a ser detido. Um sétimo, Alan Garcia, cometeu suicídio em 2019 quando estava prestes a ser detido por policiais na sua residência.
Criminalidade
Nesta campanha, porém, a criminalidade, rivaliza – em muitos casos, até supera – a corrupção como principal preocupação dos eleitores.
Nos últimos anos, o Peru não era um país associado assolado por ondas de violência como países vizinhos, mas homicídios e uma e casos de extorsão aumentaram muito nos últimos anos, afetando principalmente trabalhadores do setor de transportes e pequenos empresários, segundo informações da professora Paula Muñoz, da Universidade do Pacífico, em Lima.
Dados oficiais mostram que os casos de extorsão aumentaram quase 20% somente no ano passado, e as taxas de homicídio atingiram novos recordes.
Essas estatísticas aumentaram também o apoio a respostas mais duras e, consequentemente, populistas, segundo Muñoz, reiterando uma tendência atual da América Latina, onde o crime é melhor combatido – ao menos teoricamente – por líderes radicais, a exemplo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
Alguns propõem, por exemplo, o envio de tropas para as ruas das cidades mais violentas, o retorno da pena de morte, a retirada de tribunais internacionais de direitos humanos e a permissão para que magistrados que julgam casos criminais fiquem anônimos, o que traria novamente à tona os chamados “juízes sem rosto”, algo que o Peru aboliu em 1997.
Instabilidade constante
O Peru é palco de instabilidade política há quase uma década, já que, nesse período, teve oito presidentes, e nenhum chefe de Estado conseguiu chegar ao fim do mandato.
Em 2021, na última eleição, o enfraquecimento de parte do establishment envolvido em acusações de corrupção abriu caminho para a eleição do populista Pedro Castillo. Mas ele foi removido do cargo pela Câmara em 2022, na esteira de uma tentativa de autogolpe.
Sua sucessora, Dina Boluarte, chegou a figurar entre as líderes mais impopulares do mundo, com apenas 2% de aprovação, e acabou removida do cargo em outubro. Seu sucessor, José Jeri,sofreu impeachment em fevereiro deste ano.
Desde o fim da ditadura militar no Peru, em 1980, apenas 4 dos 11 políticos que cumpriram mandatos à frente da Presidência do país não enfrentaram problemas com a Justiça após deixarem o cargo.
Essas eleições, no entanto, podem tanto marcar uma ruptura com o ciclo de instabilidade, quanto “nos manter presos nele”, afirma o analista político Fernando Tuesta.
(Reuters, AFP)