Em dia de relativa retomada do apetite por risco no exterior, o Ibovespa tomou o elevador e saiu de seu primeiro fechamento no nível de 166 mil, na terça, para o primeiro aos 171 mil pontos, patamar recorde também atingido pela primeira vez no intradia desta quarta-feira, 21. No melhor momento, bem perto do ajuste final, quase tocou os 172 mil pontos, aos 171.969,01, e, no encerramento, ainda mostrava alta de 3,33%, aos 171.816,67 pontos, com giro financeiro muito reforçado aos R$ 53,3 bilhões, bem acima da média móvel de 200 períodos e em nível bem pouco usual fora dos dias de vencimento de opções sobre o índice. Na mínima, na abertura, indicava 166.277,91 pontos. Na semana, o Ibovespa sobe 4,26%, colocando o ganho acumulado até aqui no mês e no ano a 6,64%.
Foi a primeira vez desde 9 de abril passado (+3,12%) que o Ibovespa obteve um ganho diário na casa de 3%, e também o maior avanço em porcentual em quase três anos para o índice, desde 11 de abril de 2023 (+4,29%).
Em dólar, o desempenho desta quarta – em que a moeda americana fechou em baixa de 1,11%, a R$ 5,3208 – coloca o Ibovespa a 32.291,51 pontos, após ter encerrado dezembro aos 29.354,16 pontos. Ainda assim, permanece longe do topo registrado em julho de 2008 quando, convertido para a moeda americana, quase encostou nos 45 mil pontos, com o dólar girando então em torno de R$ 2,20. Para que o Ibovespa atinja valores similares na moeda americana, precisaria se aproximar dos 240 mil em termos nominais – algo ainda fora do horizonte próximo, mesmo quando se consideram as previsões otimistas para 2026.
“Alta muito robusta do Ibovespa, já vindo no dia anterior de fechamento em nível recorde. Nesta quarta, foi na mesma direção do exterior, em meio à percepção de que há uma rotação de ativos em nível global, que favorece emergentes como o Brasil. E com efeito também para o câmbio, e não apenas para ações, nesse aumento de fluxo para diversificação regional”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research. Ele considera que a fala do presidente dos EUA, Donald Trump, em Davos, não veio livre de “provocações”, ainda que ele tenha indicado que não considera a opção militar como um caminho para convencer os europeus a ceder a soberania da Groenlândia.
Mas, no fim da tarde, em outro desdobramento que deu fôlego extra não apenas aos índices de ações em Nova York como também, em grau maior, ao Ibovespa, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por rede social, anunciou a suspensão das tarifas adicionais que havia prometido para um grupo de países europeus, com efetivação em 1º de fevereiro. No mesmo post, Trump anunciou haver uma estrutura de entendimento preliminar com relação ao futuro da Groenlândia, uma pauta geopolítica que tinha associado à pressão tarifária.
Assim, em Nova York, a recuperação vista nesta quarta-feira, após uma sessão por lá negativa na terça, resultou em alta de 1,21% (Dow Jones), 1,16% (S&P 500) e 1,18% (Nasdaq) no fechamento. “Houve fluxo significativo de ingresso de investimento estrangeiro para a Bolsa brasileira hoje, o que contribuiu para jogar o dólar para baixo frente ao real. Até a fala de Trump em Davos, havia muita preocupação em torno do uso de força militar com relação à Groenlândia”, diz Thiago Avallone, especialista em câmbio da Manchester Investimentos.
Na agenda doméstica, Spiess, da Empiricus Research, aponta também a pesquisa AtlasIntel, que trouxe um pouco de crescimento do pré-candidato Flávio Bolsonaro em eventual confronto direto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segundo turno da campanha de 2026, o que animou o mercado.
No quadro mais amplo, para o economista-chefe André Perfeito, da Garantia Capital, países emergentes como o Brasil têm se beneficiado do “movimento duplo de bolsa em alta e dólar em queda”. Nesse contexto, em especial “o Brasil se beneficia mais, por conta da nossa estrutura mais organizada no mercado de capitais do que outros países, e também pelas empresas ligadas a commodities”.
Perfeito menciona também ter havido uma fuga para qualidade, em ativos reais como ouro e prata, e que, na “rebarba de liquidez”, há agora uma migração de recursos para “derivadas de commodity”, como o Ibovespa, em referência à exposição do índice de referência da B3 aos preços de matérias-primas como petróleo e minério.
Neste enquadramento, e com volume muito reforçado na sessão, carros-chefes das commodities e da B3, como Petrobras (ON +4,59%, PN +3,53%) e Vale (ON +3,02%), estiveram entre as campeãs do dia, em que outro segmento de apetite do investidor estrangeiro na Bolsa brasileira, o financeiro, também foi bem, com destaque para Itaú (PN +4,38%). Na ponta ganhadora do Ibovespa, Cogna (+10,96%), Ydqus (+8,91%) e C&A (+7,93%). No lado oposto, apenas uma das 85 que compõem o Ibovespa encerrou o dia em baixa: TIM (-1,11%).