Elizabeth Holmes, protagonista de um dos maiores escândalos empresariais do Vale do Silício, está novamente sob os holofotes. Mais de três anos depois de começar a cumprir pena nos Estados Unidos pela fraude envolvendo a Theranos, a ex-empresária é personagem central de um novo documentário que mostra seus últimos dias em liberdade e sua tentativa de contestar a imagem que se consolidou após a queda da companhia.
“You Can See Everything”, dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim, foi apresentado de surpresa no Festival de Telluride no domingo, 6. A produção começou a acompanhar Holmes 34 dias antes de sua entrada na prisão, em maio de 2023, e se estendeu por aproximadamente três anos. O lançamento comercial está previsto para outubro.
O projeto chama atenção também por uma diferença em relação às diversas produções já feitas sobre o escândalo: desta vez, Holmes concordou em participar. As câmeras tiveram acesso à casa onde ela vivia com o companheiro, Billy Evans, e os dois filhos antes de sua prisão. Os realizadores chegaram posteriormente a visitá-la na penitenciária.
No primeiro teaser, divulgado no domingo, Holmes volta a contestar a percepção pública criada em torno dela e insiste que não está tentando enganar os responsáveis pelo filme. O material registra conversas tensas entre a ex-executiva e Fielder e coloca justamente a credibilidade de Holmes no centro da narrativa.
Da promessa revolucionária à condenação
A história que levou Holmes à prisão começou mais de duas décadas atrás.
Em 2003, aos 19 anos, ela deixou a Universidade Stanford para fundar a Theranos. A empresa prometia revolucionar os exames laboratoriais ao realizar centenas de análises utilizando apenas algumas gotas de sangue retiradas da ponta de um dedo.
A proposta transformou Holmes em uma das figuras mais celebradas do universo da tecnologia. A Theranos chegou a ser avaliada em bilhões de dólares e atraiu investidores de grande projeção. A empresária adotou inclusive elementos associados a Steve Jobs, como as tradicionais blusas pretas de gola alta e apresentações cuidadosamente produzidas para divulgar sua tecnologia.
O império começou a desmoronar em 2015, quando reportagens do “The Wall Street Journal” levantaram dúvidas sobre a capacidade e a confiabilidade dos equipamentos desenvolvidos pela companhia. A Theranos acabaria encerrando suas atividades.
Anos depois, o caso chegou aos tribunais.
Em janeiro de 2022, um júri federal considerou Holmes culpada por um crime de conspiração para fraudar investidores e três acusações de fraude eletrônica relacionadas a investidores. Ela foi absolvida das acusações relacionadas diretamente à fraude de pacientes que chegaram a um veredicto.
Em novembro daquele ano, Holmes recebeu uma sentença de 135 meses, equivalentes a 11 anos e três meses de prisão. Ela começou a cumprir a pena em 30 de maio de 2023 em uma penitenciária federal de segurança mínima em Bryan, no Texas.
Pena foi reduzida em 2026
A situação judicial de Holmes mudou desde a reportagem publicada pela IstoÉ em 2022.
Em fevereiro de 2025, o Tribunal de Apelações do 9º Circuito rejeitou os principais argumentos apresentados pela defesa e manteve a condenação, a sentença e a ordem de restituição impostas no processo.
Já em março deste ano, o juiz Edward Davila reduziu formalmente a pena em 12 meses. A sentença passou de 135 para 123 meses, ou dez anos e três meses, após uma alteração nas diretrizes federais de sentenciamento aplicáveis a determinados réus primários condenados por crimes não violentos.
Com os créditos penitenciários considerados pelo sistema federal, a data projetada para a libertação de Holmes é atualmente 30 de dezembro de 2031. Essa previsão pode sofrer novas alterações.
Holmes também tenta reduzir pena com Trump
Paralelamente às disputas judiciais, a ex-empresária recorreu ao Executivo.
Holmes apresentou um pedido de comutação da pena ao governo do presidente Donald Trump. O requerimento foi protocolado em 2025 e constava como pendente de análise no início de 2026. Uma eventual comutação poderia reduzir ou extinguir o restante da pena de prisão, mas não apagaria sua condenação.
Até o momento, não há confirmação de que o pedido tenha sido concedido.
Uma história que Hollywood não abandonou
O fascínio pela ascensão e queda da Theranos começou muito antes do novo documentário.
Em 2019, o caso foi abordado em “The Inventor: Out for Blood in Silicon Valley”, documentário dirigido por Alex Gibney. Três anos depois, Amanda Seyfried interpretou Holmes na minissérie “The Dropout”, papel que lhe rendeu um Emmy. As duas produções já eram mencionadas pela IstoÉ quando a ex-empresária recebeu sua sentença.
“You Can See Everything”, porém, apresenta uma diferença fundamental: não se limita a reconstruir o escândalo.
O filme acompanha a própria Holmes durante o período imediatamente anterior à prisão e registra sua versão dos acontecimentos. A produção teve estreia mundial secreta em Telluride e será distribuída pela A24. O estúdio lista oficialmente o longa entre seus lançamentos de 2026.
A divulgação acontece justamente quando Holmes, hoje com 42 anos, continua tentando reverter a percepção construída desde o colapso da Theranos. Mesmo depois da condenação e do fracasso de sua apelação, ela segue sustentando publicamente sua inocência.
Mais de uma década depois de a tecnologia da Theranos começar a ser colocada em xeque, a mulher que prometeu reinventar os exames de sangue volta assim ao centro da narrativa. Desta vez, porém, não para apresentar uma inovação bilionária no Vale do Silício, mas para tentar explicar diante das câmeras quem acredita ser por trás de um dos escândalos empresariais mais famosos dos Estados Unidos.
Da IstoÉ
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