Cultura

Elétrico e engajado, o ‘Fado Bicha’ revoluciona a tradição em Portugal

Elétrico e engajado, o ‘Fado Bicha’ revoluciona a tradição em Portugal

Lila Fadista, cantor da dupla "Fado Bicha", se maquia antes de uma sessão de fotos em um hotel de Lisboa, em 22 de agosto de 2019 - AFP

Com uma longa peruca preta, meias arrastão e uma minissaia, “Lila Fadista” levanta um leque na altura da barba enquanto canta a dor e a revolta de uma comunidade gay ausente, até agora, do universo do fado, a música tradicional de Portugal.

Tiago Lila, seu nome verdadeiro, está acompanhado por João Caçador, que, agarrado a seu violão elétrico, se oculta debaixo de um chapéu de aba longa, calça de leopardo e saltos altos.

Juntos, os dois artistas formam o grupo “Fado Bicha”.

Desde 2017, fizeram 150 shows em Portugal, Espanha, França e Bélgica, e animam regularmente as noites de um hotel de Lisboa para turistas gays.

A dupla se apropria do patrimônio do fado para contar os amores de um pescador com um vendedor de mariscos, a desesperança de um dançarino homossexual trancado em um hospital psiquiátrico e o orgulho de uma mulher transexual que se tornou líder dos militantes a favor dos direitos das pessoas LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais).

“Quando canto o fado, sinto uma energia muito feminina (…) Compreendi rápido que não há lugar para mim no meio do fado tradicional”, conta o cantor de 34 anos, que deixou a escola de fado que frequentava para criar seu alter ego travesti.

– Clássicos com novo rosto –

“Foi a solução que encontrei para viver meu sonho sem ter que renunciar a uma parte da minha identidade”, diz este psicólogo de profissão.

Lila se apropria das canções mais famosas, inclusive as cantadas pela grande diva do fado Amalia Rodrigues, falecida há 20 anos, e reescreve suas letras.

O uso do violão elétrico em vez do clássico é também “uma forma de libertação e subversão”, afirma João Caçador, instrumentista de 30 anos que estudou jazz e continua tocando para empresas musicais de fado tradicional.

“É a primeira vez que ouço fado e é comovente. É necessário que os artistas se comprometam assim, é incrível o que fazem por nossa comunidade”, diz Guillaume Bellon, turista francês de 31 anos hospedado neste hotel situado em um bairro elegante de Lisboa.

“Não faço distinção se é cultura gay ou não. Canta com a alma, com todo o seu ser”, diz Ana Pereira, que veio ouvir a dupla em um festival de música e arte emergente.

Os artistas, que cresceram nos subúrbios de Lisboa, afirmam que este gênero musical surgiu à margem da sociedade, nos bairros populares da cidade no fim do século XVIII, e foi inscrito no patrimônio imaterial da Unesco em 2011.

– A sombra da ditadura –

Maria Severa, cantora que viveu no século XIX, “é considerada a primeira lenda do fado e era cigana e trabalhadora sexual”, ressalta Lila com um sorriso.

Perante um projeto como o “Fado Bicha”, tem gente tradicional que critica, diz Carlos Sanches Ruivo, proprietário do hotel onde a dupla toca. Sanchez Ruivo é presidente da Câmara de Comércio e Turismo LGBTI de Portugal.

“Mas nós queremos sair desse status quo que continua ligado a uma sombria etapa da nossa história”, acrescentou o empresário franco-português de 51 anos, referindo-se à ditadura de Antonio Salazar, cuja política cultural se apoiava sobre “três Fs”: fado, futebol e Fátima, o santuário católico do centro do país.

Tiago Lila e João Caçador começaram a gravar um primeiro álbum que será produzido por Luis Clara Gomes, artista conhecido por seu projeto de pop eletrônico “Moullinex”.

“O que eu gosto do ‘Fado Bicha’ é sua capacidade de prestar homenagem à herança do fado lançando-o em um universo filosófico com o qual me identifico”, disse o produtor.