A expansão de grandes centros de processamento de dados nos Estados Unidos enfrenta uma crescente resistência popular. Nas eleições de meio de mandato realizadas na terça-feira (3), eleitores de diferentes estados se posicionaram contra projetos de instalação de data centers, estruturas essenciais para o funcionamento de sistemas de inteligência artificial (IA).
Segundo o levantamento apresentado pela organização Ballotpedia, 40 dos 41 plebiscitos locais realizados em dez estados terminaram com resultados contrários à expansão dessas instalações ou favoráveis à imposição de restrições.
O resultado coloca em evidência uma preocupação que vai além dos debates sobre os benefícios da tecnologia: os impactos econômicos e ambientais provocados pela infraestrutura necessária para sustentar o crescimento da inteligência artificial.
Entre os principais pontos levantados pelas comunidades estão o consumo elevado de eletricidade, a utilização de água para resfriamento dos equipamentos e o possível aumento das despesas domésticas.
Data centers entram no centro do debate eleitoral
A oposição à construção de grandes centros de processamento de dados ganhou espaço durante a campanha eleitoral americana.
Pesquisa de boca de urna da NBC News, citada no levantamento, apontou que 57% dos entrevistados acreditavam que a inteligência artificial poderia provocar mais prejuízos do que benefícios à sociedade.
O mesmo levantamento indicou que 76% se posicionavam contra a instalação de data centers em suas próprias comunidades.
Os números refletem a preocupação de parte da população com a velocidade dos investimentos no setor e a ausência de garantias de que os benefícios econômicos serão compartilhados com os moradores das regiões afetadas.
O debate também passou a influenciar disputas políticas locais e nacionais, com candidatos defendendo regras mais rígidas para a instalação de grandes empreendimentos tecnológicos.
Consumo de energia e água preocupa comunidades
Os data centers concentram servidores e equipamentos utilizados para armazenar, processar e distribuir grandes volumes de informações.
Com o crescimento da inteligência artificial generativa, a demanda por capacidade computacional aumentou, impulsionando investimentos em instalações cada vez maiores.
Essas estruturas podem exigir quantidades expressivas de eletricidade para alimentar servidores e sistemas de refrigeração.
Dependendo da tecnologia empregada, também podem utilizar volumes significativos de água para controlar a temperatura dos equipamentos.
A instalação de grandes empreendimentos pode exigir investimentos adicionais em redes elétricas, sistemas de abastecimento e outras estruturas locais.
O economista André Roncaglia, professor da Universidade de Brasília (UnB) e diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo a identificação apresentada no material, avaliou que os impactos sobre os preços da energia e da água ajudaram a estimular a mobilização popular.
Na avaliação do especialista, regiões que ofereciam menos restrições à construção de data centers atraíram investimentos, mas também passaram a enfrentar questionamentos sobre seus custos ambientais e sociais.
Plebiscitos mostram rejeição a grandes instalações
Boa parte das consultas populares foi organizada a partir de iniciativas de moradores, que reuniram assinaturas para submeter propostas de restrição ao voto.
Ao longo de 2026, foram programados 50 plebiscitos relacionados ao tema nos Estados Unidos, segundo os dados apresentados no levantamento.
Desse total, 41 ocorreram nas eleições de terça-feira (3), enquanto outras consultas haviam sido realizadas anteriormente.
As propostas envolvem principalmente limitações ou proibições à instalação de data centers de hiperescala, categoria que reúne estruturas de grande capacidade de processamento.
Um dos critérios utilizados nas consultas é o consumo de energia igual ou superior a 25 megawatts.
Em Ottawa, no Kansas, uma proposta para proibir a construção de centros com demanda acima desse limite recebeu 72% dos votos, conforme os resultados citados pela Ballotpedia.
O caso exemplifica a força da oposição local a projetos que podem alterar significativamente a demanda por recursos e infraestrutura.
Resultado eleitoral amplia pressão por regulamentação
O desempenho dos democratas nas eleições de meio de mandato também aumentou as expectativas de mudanças na política americana para o setor tecnológico.
O presidente Donald Trump vinha defendendo uma abordagem de menor intervenção governamental, com incentivo aos investimentos privados e mecanismos de autorregulação da inteligência artificial.
Já integrantes do Partido Democrata passaram a defender regras mais rigorosas para o desenvolvimento de sistemas avançados e para a expansão da infraestrutura digital.
Segundo André Roncaglia, a possibilidade de mudanças regulatórias altera as expectativas dos investidores e pode provocar ajustes no mercado financeiro.
O economista relacionou parte da reação das bolsas à perspectiva de que empresas de tecnologia passem a enfrentar maiores exigências regulatórias.
O material original também registra queda de 5,5% no índice Nasdaq Composite nesta sexta-feira (6), informação que exige confirmação do período de referência e do fechamento do mercado.
Debate ultrapassa divisões partidárias
Para Paulo Abraão, diretor-executivo da Brazil Office Alliance, a oposição aos grandes data centers não pode ser interpretada apenas como uma rejeição à inovação tecnológica.
O especialista considera que a mobilização representa uma cobrança por maior participação da sociedade nas decisões sobre a expansão da inteligência artificial.
Segundo ele, 56% dos eleitores consideraram a IA e os data centers fatores importantes ou decisivos para suas escolhas eleitorais.
Abraão também destacou que a resistência aos empreendimentos ultrapassa as divisões tradicionais entre democratas e republicanos.
A discussão envolve a distribuição dos benefícios econômicos gerados pela tecnologia e a responsabilidade pelos custos sociais e ambientais de sua implantação.
Na avaliação do especialista, o tema deverá permanecer na agenda política americana e poderá influenciar a disputa presidencial de 2028.
Democratas defendem novas regras para inteligência artificial
Com a mudança no cenário político, representantes democratas passaram a defender medidas mais amplas de controle sobre o desenvolvimento da inteligência artificial.
Entre as propostas estão restrições à criação de sistemas considerados de alto risco e a ampliação das exigências de segurança para empresas do setor.
A deputada eleita pelo Arizona, Yassmin Ansari, defendeu uma pausa no desenvolvimento de tecnologias avançadas de IA e regras mais rigorosas para a indústria.
As propostas contrastam com a orientação defendida pelo governo Trump, que anunciou em setembro uma agenda baseada na autorregulação das empresas de tecnologia.
O avanço dessas iniciativas dependerá das negociações no Congresso e da capacidade de construir apoio político para novas leis.
Expansão da IA enfrenta questionamentos sobre seus custos
A resistência aos data centers revela um desafio crescente para as grandes empresas de tecnologia.
Embora a inteligência artificial prometa ganhos de produtividade e novas oportunidades econômicas, sua expansão depende de uma infraestrutura física que consome recursos e transforma as regiões onde é instalada.
O debate americano demonstra que os investimentos tecnológicos passaram a ser avaliados também por seus efeitos sobre a conta de luz, o abastecimento de água e a qualidade de vida das comunidades.
Com novos projetos em desenvolvimento e maior atenção dos eleitores, a relação entre inovação, regulação e responsabilidade ambiental deverá continuar no centro das discussões políticas dos Estados Unidos.
Da IstoÉ e Agência Brasil