Para Paulo Vasconcelos, marqueteiro das campanhas vitoriosas de Fuad Noman (PSD), reeleito prefeito de Belo Horizonte em 2024, de Cláudio Castro (PL), reeleito governador do Rio de Janeiro em 2022, e da candidatura presidencial de Aécio Neves (PSDB) em 2014, a próxima disputa presidencial não deverá ser sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
“A guerra de 2026 vai se estabelecer entre trabalhar com a ideologia ou com a necessidade da população“, afirmou Vasconcelos, que tem negociações avançadas para assumir a pré-campanha de Ronaldo Caiado (União Brasil), primeiro político a se lançar oficialmente ao Palácio do Planalto, ainda em abril.
A projeção do goiano neste cenário atraiu o marqueteiro. “Se a discussão for ‘quem pode ajudar sua vida’, Caiado é um player fortíssimo; se for ‘quem é mais bolsonarista’ ou ‘quem é mais lulista’, a história é outra”, afirmou, nesta entrevista à IstoÉ.
Eleitor esgotado
Vasconcelos orientou candidatos vitoriosos a “furarem a bolha” da polarização. Em 2022, Castro era apoiado por Bolsonaro, mas não levou o então presidente à propaganda eleitoral e evitou um discurso alinhado à direita radical — até por isso, não é identificado como fiel ao bolsonarismo. Foi reeleito ainda no primeiro turno contra Marcelo Freixo (então no PSB), mais popular nas redes sociais e aliado de Lula.
Dois anos mais tarde, um ex-vice-prefeito pouco conhecido largou com menos de 10% das intenções de voto na capital mineira, atrás de candidaturas associadas a Lula e de uma disputa povoada na direita. Fuad cresceu, chegou ao segundo turno e, mesmo apoiado pela esquerda, não fez agendas com o presidente. Nas urnas, superou a vantagem inicial do bolsonarista Bruno Engler (PL) para se reeleger.
“Todo mundo trabalhava com as bênçãos de Lula e Bolsonaro para seguir em frente, mas cometi essa heresia [de apostar em estratégia distinta] porque percebi que as pessoas estão cansadas da polarização e preocupadas com quem vai resolver a vida delas, os problemas reais“, afirmou.

Fuad Noman (morto em 2025): reeleito prefeito de BH em campanha dissociada de Lula e Bolsonaro
“Há um movimento [dos presidenciáveis de oposição], em especial do governador Romeu Zema [Novo, de Minas Gerais], de abraçar com muita paixão as bandeiras do bolsonarismo para amealhar logo os 20% desse campo. Mas isso reflete a crença, a meu ver precipitada, no que mostram as pesquisas atuais. Lá na frente, o eleitor de centro, que está preocupado com a própria vida, é quem vai decidir a eleição“.
Nas rodadas mais recentes de Genial/Quaest, Paraná Pesquisas e Atlas/Bloomberg, Bolsonaro teve o maior patamar de intenção de voto nas simulações de primeiro turno contra Lula. Com o ex-presidente inelegível, um grupo formado por seus familiares políticos, Zema, Caiado e pelos governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), disputa seu espólio nas urnas.
O fator Caiado
Na avaliação do marqueteiro, o índice de conversão de votos do governador de Goiás mostra seu potencial na corrida. “O Fernando Collor [eleito presidente em 1989 com participação de Vasconcelos na campanha] tinha 3% de conhecimento e 1,5% de conversão de voto no início da campanha. Se o candidato é pouco conhecido e tem muita conversão de voto, tem potencial“, disse.
Nos cenários simulados por Atlas, Paraná e Quaest, o goiano oscilou entre 3 e 4,6% das intenções de voto, desempenho inferior aos de Tarcísio e Ratinho, mas similar ao de Zema. Caiado defendeu, em entrevista à IstoÉ, que a direita lance várias candidaturas e se una em torno do nome classificado ao embate direto contra Lula.

Caiado, pré-candidato à Presidência: ‘Será extramamente competitivo’, diz marqueteiro
Além do potencial de conversão, o marqueteiro avaliou que Caiado poderá se destacar pelos índices à frente do estado que governa desde 2019. “Ele tem o melhor desempenho [entre as gestões estaduais] em segurança públlica, que será um tema fortíssimo no ano que vem, educação e gestão ambiental. Se entrega consistente e experiência forem considerados, como acredito, será um candidato extremamente competitivo“.
Ao considerar que o presidenciável rompe com a discussão entre Lula e Bolsonaro, o marqueteiro está respaldado por fatos. Caiado já teve embates públicos com o ex-presidente e defendeu o lançamento de candidaturas presidenciais sem seu aval. Por outro lado, participou de manifestações contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e vocalizou pautas de interesse do bolsonarismo, como a anistia aos condenados do 8 de janeiro.
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Além da disputa na direita, o goiano precisa se viabilizar internamente como concorrente ao Planalto. O União Brasil é um partido rachado, que abriga de bolsonaristas a ministros de Lula e se federou recentemente ao PP, o que aumenta fundo eleitoral e tempo de televisão da sigla, mas também abre espaço para lideranças que defendem Tarcísio como presidenciável e, inclusive, trabalham para ocupar sua vice na corrida. No evento que oficializou a federação, com a presença de Caiado, os discursos já deram “tom de candidato” ao governador paulista.