A Rússia iniciou, nesta sexta-feira (18), o processo eleitoral de três dias para renovar a Duma, câmara baixa do Parlamento, marcando a primeira eleição desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022. O resultado, contudo, é amplamente previsto: o partido Rússia Unida, liderado pelo presidente Vladimir Putin, deve assegurar uma maioria expressiva, após as autoridades terem sistematicamente excluído da disputa vozes críticas ao conflito.
- As eleições na Rússia para a Duma acontecem em um cenário de restrição à oposição e controle do Kremlin.
- O partido Rússia Unida, de Vladimir Putin, deve manter sua ampla maioria, após candidaturas oposicionistas terem sido barradas.
- A votação se estende às quatro regiões ucranianas anexadas por Moscou, em meio a ataques de drones e sanções que afetam a economia russa.
O histórico partido de oposição Yabloko (Partido Democrático Unido Russo), que abertamente critica a intervenção militar na Ucrânia, foi retirado da votação proporcional pela Suprema Corte no mês passado. A acusação formal foi de violações de propriedade intelectual em seu site, resultando na perda de metade dos assentos da Duma. Além disso, candidatos da legenda foram desqualificados em diversos distritos majoritários.
Em pronunciamento televisionado, o presidente Vladimir Putin convocou os cidadãos russos a votar, classificando a eleição como “decisiva em muitos aspectos”. O conflito com a Ucrânia, que para a Rússia já dura mais do que a Segunda Guerra Mundial, completa quatro anos e sete meses. “Esta será a nossa resposta comum àqueles que querem enfraquecer a Rússia, frear seu desenvolvimento e nos privar da nossa soberania”, afirmou Putin.
Qual o impacto da guerra nas eleições?
Além do Rússia Unida, que obteve 49,8% dos votos em 2021 e 324 das 450 cadeiras na Duma, concorrem quatro legendas da chamada “oposição de sistema”: o Partido Comunista, liderado por Gennady Zyuganov, o Rússia Justa, o Partido Liberal-Democrata e o Gente Nova. Todos esses grupos evitam atacar diretamente Putin e não questionam a chamada “operação militar especial”.
Pela primeira vez na história, o pleito ocorre também nas quatro regiões ucranianas parcialmente ocupadas e anexadas por Moscou em 2022: Donetsk, Lugansk, Zaporizhzhia e Kherson. Essa inclusão visa legitimar a ocupação russa dos territórios.
Enquanto a votação acontece, os efeitos da guerra se fazem sentir na economia russa. A inflação disparou, e os frequentes ataques de drones ucranianos a refinarias provocaram escassez de combustível. Longas filas nos postos são registradas, inclusive nas grandes cidades como Moscou e São Petersburgo, indicando um impacto direto na vida dos cidadãos.
Oposição no exílio se mobiliza
Apesar do rigoroso controle sobre as candidaturas, a oposição russa no exílio tenta se mobilizar. Yulia Navalnaya, viúva do opositor Alexei Navalny (falecido em uma colônia penal no Ártico em 2024), e o político Maxim Katz, pediram aos eleitores que votassem em qualquer partido que não fosse o Rússia Unida. Eles divulgaram uma lista de candidatos em distritos majoritários. Em contraste, o Yabloko orienta seus apoiadores a escolher apenas os candidatos de seu partido e anular a cédula nos demais casos.
Navalnaya e o também opositor Ilya Yashin ainda convocaram os russos a comparecerem em massa às urnas ao meio-dia de domingo (20). A iniciativa é vista como uma forma silenciosa e de baixo risco de protesto contra o regime.
Internacionalmente, a Comissão Europeia manifestou preocupação. “As eleições para a Duma evidenciam a contínua e crescente erosão da democracia na Rússia. As autoridades russas intensificaram a repressão sistemática e institucionalizada para impedir que qualquer força de oposição democrática desafiasse o status quo”, afirmou um porta-voz da entidade.
Ataques de drones marcam o pleito
As eleições para a Duma começaram em meio a uma chuva de drones lançada pela Ucrânia. Segundo o Ministério da Defesa de Moscou, as Forças Armadas interceptaram pelo menos 629 aeronaves não tripuladas na Crimeia ocupada e nas águas do Mar de Azov e do Mar Negro durante a última madrugada. Em Sochi, na costa russa no Mar Negro, a votação chegou a ser suspensa por 1h30 na manhã desta sexta-feira devido a uma ação de drones. O presidente Putin preferiu não ir a seu colégio eleitoral e votou de forma online.
Da IstoÉ com ANSA