Eleições municipais acontecem na Cisjordânia e no centro de Gaza neste sábado (25/04), marcando o primeiro pleito desde o início do conflito entre Israel e o grupo palestino Hamas.
A votação visa preencher cadeiras em conselhos locais, com participação de cerca de 1,5 milhão de eleitores na Cisjordânia e 70 mil na região de Deir el-Balah, em Gaza, conforme dados da Comissão Central de Eleições.
Esta é a primeira vez que Gaza, sob controle do Hamas desde 2007, registra uma votação desde as eleições legislativas de 2006, quando o movimento islamista venceu.
O que aconteceu
- As primeiras eleições municipais desde o início da guerra entre Israel e Hamas ocorrem na Cisjordânia e no centro de Gaza
- A participação eleitoral foi baixa nas primeiras horas do pleito, refletindo um campo político limitado e o desânimo da população com as lideranças.
- O Hamas, rival do Fatah, não participa oficialmente, mas, segundo analistas, concorre por meio de candidatos alinhados, enquanto a OLP é acusada de corrupção.
Em disputa estão cadeiras nos conselhos municipais, que supervisionam serviços essenciais como água, saneamento e infraestrutura local, mas não têm poder para aprovar leis. Com as eleições presidenciais ou legislativas congeladas desde 2006, esses conselhos se tornaram um dos últimos mecanismos democráticos remanescentes sob a Autoridade Palestina (AP), que governa as partes da Cisjordânia que não estão sob controle israelense.
No comando da AP está a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), entidade representada em fóruns internacionais pelo presidente Mahmoud Abbas, do movimento secular-nacionalista Fatah. O Fatah é um grupo rival do Hamas e foi expulso de Gaza em 2007.
A baixa participação expõe o desgaste?
A participação foi notavelmente baixa nas primeiras horas da votação, evidenciando um campo político limitado e o desânimo generalizado com as atuais lideranças políticas. Até as 13h do horário local (7h de Brasília), 25,3% do eleitorado havia comparecido às urnas na Cisjordânia, e apenas 13,8% em Gaza, informou a comissão eleitoral. A votação termina às 19h na Cisjordânia, e às 18h em Deir el-Balah.
A baixa adesão pode refletir o nível de confiança pública em um sistema mais amplo, liderado por dirigentes envelhecidos na Cisjordânia. Enquanto isso, Gaza se prepara para uma transição esperada do governo do Hamas – condição imposta por Estados Unidos e Israel para o avanço de um plano de paz e consequente recuperação do território devastado pela guerra.
A agência de notícias AFP relatou que algumas seções em partes da Cisjordânia estavam praticamente vazias, mesmo com diplomatas estrangeiros circulando para observar o processo. A maioria das listas eleitorais está alinhada ao Fatah, de Mahmoud Abbas, ou é formada por independentes, alguns deles respaldados por facções menores, como a Frente Popular para a Libertação da Palestina, de orientação marxista-leninista.
Eleições simbólicas em um cenário complexo
Em muitas cidades da Cisjordânia, incluindo Nablus e Ramallah, esta última sede da Autoridade Palestina, há apenas uma lista de candidatos, o que significa que eles serão eleitos sem precisar de um voto sequer.
A AFP citou relatos de que alguns candidatos teriam sido impedidos de participar do pleito.
Outros grupos teriam boicotado a votação em reação a uma exigência de reconhecimento do programa da OLP, que preconiza o reconhecimento do Estado de Israel e a renúncia à luta armada.
A OLP, contudo, tem sido acusada de corrupção à frente do governo da Cisjordânia e de não possuir mais legitimidade para representar os palestinos. O Hamas, que é rival histórico do Fatah, não participa oficialmente do pleito, mas segundo analistas e moradores, estaria concorrendo com candidatos alinhados. O grupo é considerado uma organização terrorista por Israel, Estados Unidos, União Europeia e diversos outros países. Ainda assim, uma pesquisa do Centro Palestino de Pesquisa em Políticas e Opinião Pública indica que o Hamas é a força eleitoral mais popular tanto em Gaza quanto na Cisjordânia.
Que a AP só esteja organizando eleições em Gaza na cidade de Deir el-Balah é algo que o cientista político Jamal al-Fadi, da Universidade Al-Azhar, no Cairo, vê como um teste de popularidade, “já que não há pesquisas de opinião pós-guerra”, disse ele à AFP. Deir el-Balah foi escolhida por ser uma das poucas áreas onde a população não foi deslocada em massa, explicou.
Desafios e esperança de reformas
O chefe da comissão eleitoral, Rami Hamdallah, acusou Israel de barrar a entrada de materiais em Gaza para a realização da votação, como cédulas eleitorais, urnas e tinta. O Cogat, órgão militar israelense que supervisiona assuntos humanitários em Gaza, não respondeu às acusações.
A Autoridade Palestina viu seu poder minguar após anos sem negociações de paz e com Israel apertando seu controle sobre a Cisjordânia ocupada. No entanto, a entidade vê as eleições locais como uma forma de baixo risco de demonstrar avanços nas reformas, analisa Aref Jaffal, diretor do al-Marsad Arab World Democracy and Electoral Monitor.
“A AP quer mostrar que está no caminho certo em reformas políticas, financeiras e administrativas, e está usando as eleições locais como um símbolo disso”, disse Jaffal à agência de notícias Reuters. Em Gaza, o palestino Mohammed al-Hasayna, de 24 anos, afirmou à AFP depois de votar que, embora as eleições sejam em grande parte simbólicas, elas representam um sinal da “vontade de viver” das pessoas.
“Somos um povo instruído, com forte determinação, e merecemos ter nosso próprio Estado”, disse. “Queremos que o mundo nos ajude a superar a catástrofe da guerra. Chega de guerras — é hora de trabalhar para reconstruir Gaza.”
O Hamas, que ainda controla as áreas de Gaza não ocupadas por militares israelenses, afirmou que respeitaria os resultados. Fontes palestinas declararam à Reuters que policiais civis do Hamas fariam a segurança das seções eleitorais no território.
A comunidade internacional e a unificação
Ramiz Alakbarov, coordenador das Nações Unidas, elogiou a comissão por organizar um “processo crível”.
“As eleições de sábado representam uma oportunidade importante para que os palestinos exerçam seus direitos democráticos em um período excepcionalmente desafiador”, afirmou Alakbarov em comunicado antes do pleito.
Já Fareed Taamallah, porta-voz da Comissão Eleitoral, afirmou que “a ideia principal [da votação] é ligar politicamente a Cisjordânia e Gaza como um único sistema”. Os palestinos veem a unificação dos dois territórios sob um único governo como um elemento vital em qualquer tentativa de alcançar um futuro Estado. Embora o governo de Israel seja contrário à ideia, governos europeus e árabes apoiam amplamente um eventual retorno da Autoridade Palestina ao governo de Gaza, junto com um Estado palestino independente.
* Com informações de AFP, Reuters e DW