Ele também é fake

Crédito: Adriano Machado

(Crédito: Adriano Machado)

Em quais lugares do mundo escamotear a realidade é prática corrente? Resposta simples e conhecida: nas nações geridas por regimes radicais, por ditadores que afrontam as liberdades e cerceiam o direito elementar e universal de acesso à informação. No Brasil de Bolsonaro, o governo federal, com uma frequência desconcertante, vem impondo obstáculos adicionais aos cidadãos para que esses tomem conhecimento da situação que os cerca. Não é de hoje. O Messias mandatário já implicou no ano passado com o IBGE quando o instituto divulgou números preocupantes de aumento do desemprego — e exigiu ali a mudança imediata de metodologia. Voltou a encasquetar com o INPE e demitiu o diretor-geral do órgão logo após a revelação de índices assombrosos de avanço das queimadas e dos desmatamentos — coincidindo com o afrouxamento da fiscalização, determinado por ele, capitão — e ainda estabeleceu censura a dados oficiais, a listas de processos de anistia e, mais recentemente, adotou o sigilo inclusive a pareceres e projetos de ministérios, antes desses seguirem rumo ao Congresso. Na prática, o inquilino do Planalto sonega dados, abomina a transparência, impõe a mordaça e manipula os acontecimentos para criar narrativas e versões sem nexo com a verdade. Age como um autêntico gatuno de estatísticas e de fatos. Botou na cabeça que não queria saber de anúncios diários de mil mortes, ou mais, de contaminados pela Covid-19. E o que fez? Nada de concreto para enfrentar a pandemia. Nenhuma atuação, conveniente a um líder, no plano sanitário. Resolveu simplesmente mudar critérios de cálculo dos óbitos, quebrar o termômetro, torturar os números, retorcer as somas, numa gambiarra gritante e contra a prática corrente no planeta. Chocou, de novo, a todos. Está sendo denunciado no Tribunal Penal Internacional, em Haia, por crimes contra a humanidade. Recebeu abaixo-assinado de mais de cem entidades condenando a prática. Foi, finalmente, barrado no intento pelo Supremo Tribunal Federal. Mas não desiste de contrariar a lógica. Omitir é um princípio de atuação na cruzada bolsonarista, especialmente no que tange a batalha contra a doença. Ele não quer ter seu nome “associado” a ela. Definitivamente tenta, como se possível fosse, afastar a gestão (destrambelhada por muitos motivos) da mácula provocada por mais esse “inconveniente”. Desde o início nega a gravidade do quadro, fala em “gripezinha”, anda de Jet ski, galopa a cavalo, prescreve remédios como panaceia e saracoteia no meio de multidões para desmerecer o que, no seu entender, não passa de mero “terrorismo”. Nem as cerca de 40 mil mortes, até aqui, o comovem. Precisa ser explicado nos anais da psicopatia o desprezo indolente de Bolsonaro pela vida alheia. A sua falta de solidariedade, compaixão e respeito ao próximo é abjeta. O luto de famílias das vítimas não lhe toca. Na última quarta-feira 10, confrontado por uma eleitora indignada e arrependida do voto dado a ele, expulsou-a do Alvorada, botando da porta do Palácio para fora, logo após ouvir que 38 mil famílias estariam chorando os mortos sem ao menos um gesto de consolo do governante. “Saia daqui, você já foi ouvida”, reagiu o “mito”. Bolsonaro se irrita profundamente com a Covid-19 porque a “maledetta” atrapalha seus planos de poder. As atitudes nesse tocante, como de resto nos demais, são exclusivamente eleitoreiras. Para livrar-se do estorvo sabota o trabalho dos que combatem a epidemia, acusa autoridades de inflarem números — quando é ele, sorrateiramente, quem promove uma ginástica nas contas — e faz o diabo para a maquiagem do drama enfrentado no País. Omitir, tirar do cálculo, recorrer a estripulias contábeis sugerem práticas fascistoides. São retratos do obscurantismo e incompetência promovidos por Jair Bolsonaro no mandato, ainda na metade do caminho. Ele, lamentavelmente, vai além. Aparelha estruturas vitais. Foi capaz de demitir dois titulares da Saúde por não atenderem as suas determinações de adotar medidas em discordância com a ciência. Colocou no lugar um general e outras duas dezenas de militares, que nada entendem, para tocar uma pasta na qual técnicos são indispensáveis. A tropa predisposta a atender aos anseios absurdos de um capitão sem escrúpulos arranha, danifica, a boa imagem das Forças Armadas. É quase ingênua a tentativa de fraudar informações, mudando de maneira oportunista metodologias, nesses tempos de comunicação democratizada na qual a sociedade tem inúmeros recursos para acessar dados, checar e desmascarar a mentira oficial. Equivale a tapar o sol com a peneira. Os mecanismos hoje disponíveis para compilar levantamentos críveis colocam por terra os movimentos de desinformação buscados pelo presidente. Ele sabe disso. Mas investe na dissonância. Na guerra de números paralelos para tumultuar e perturbar a ordem pública. Presta um desserviço à saúde e à proteção dos brasileiros. Brinca tragicamente com informações, atrasando de maneira deliberada a divulgação dos registros. Não está se importando com as consequências. Para Bolsonaro o que vale é o jogo de versões. Ele mesmo encarna as fake news que fabrica. Dissemina, promove e veicula em suas redes sociais a contabilidade criativa para reverberar a ignorância. Atenta contra regras elementares de governança da coisa pública, em absoluto descumprimento dos preceitos constitucionais. Pela primeira vez, desde que em 1975, ainda em plena ditadura militar, foi criado o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica, via lei promulgada por Ernesto Geisel, um mandatário tentou modificar dados da comissão, querendo transformar balanços de infectologia em ferramenta de marketing. Ao sugerir ocultar e sonegar um modelo de cálculo que vigora há décadas dentro do sistema de trabalho do ministério, Bolsonaro promoveu mais um retrocesso, com repercussão negativa internacional colada na imagem do País. A OMS cogitou não mais considerar os números sinalizados pelo Brasil no seu mapa de evolução global da doença. O apagão de dados foi classificado em diversos meios de comunicação do mundo civilizado como uma atitude canhestra de um mandatário voluntarioso e apegado à mentira. “Bolsonaro fake”, mais do que nunca, virou coisa nossa.

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