PANDEMIA * 2020

Elas vieram para ficar

O uso de máscaras é um caminho sem volta. E não se trata apenas de um uso de emergência para proteção individual, mas de uma estratégia de segurança coletiva, que fará com que as pessoas, daqui para frente, se protejam mutuamente. Seus efeitos imediatos, impedir o lançamento de aerossóis respiratórios e gotículas de saliva emquem está por perto e filtrar parcialmente o ar que se respira, contribuem para conter o avanço da doença ediminuem sua velocidade de contágio. No Japão, uma das razões para a pandemia de coronavírus estar sob relativo controle é o uso generalizado do equipamento. No Brasil e em outros países verifica-se uma mudança cultural e a recomendação das autoridades de saúde é que sejam usadas em espaços públicos e em situações de convívio social que envolvam filas e aglomerações.

Elas vieram para ficar

Prevenção

ESCALA Grandes indústrias como a 3M, que produz as máscaras N-95 no Brasil, estão funcionando 24 horas por dia e 7 dias por semana para atender a alta demanda pelo equipamento (Crédito:Divulgação)

Pesquisas recentes confirmam que a máscara reduz a quantidade de microorganismos infecciosos, seja o coronavírus ou o vírus Influenza, no ar que uma pessoa contaminada lança no ambiente. “Em termos de evidência científica, não há justificativa para o uso irrestrito de máscara, mas, se todo mundo pensar em proteger o outro, no final haverá um risco menor para todos”, diz o médico Luis Fernando Waib, epidemiologista do Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas e membro da Sociedade Brasileira de Epidemiologia (SBI). “Seu uso generalizado é um bom hábito, principalmente em grandes cidades onde o contágio é acelerado”. No município de São Paulo, por exemplo, onde há alta concentração de pessoas e um grande número de casos, com muitos assintomáticos, faz todo sentido um uso disseminado de máscaras de pano. “Não faz sentido, por exemplo, usar máscaras cirúrgicas para praticar corrida de rua, até porque há falta desse tipo de material de proteção nos hospitais”, completa Waib.

Nas últimas duas semanas, as autoridades sanitárias de praticamente todos os países, orientadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mudaram suas recomendações sobre o uso de máscaras para combater a propagação do coronavírus. Se antes elas vinham sendo indicadas apenas para agentes de saúde e pessoas com sintomas da doença, agora, diante da evidência de que indivíduos assintomáticos transmitem o micróbio, a recomendação é de que sejam usadas por toda a população. Na quarta-feira 8, o Centro Europeu para a Prevenção e Controle de Doenças (ECDC, da sigla em inglês) divulgou um informe nesse sentido para todos os países da região. Nos Estados Unidos, dois dias antes, o presidente Donald Trump reforçou a recomendação da autoridade sanitária para que todos os americanos usem panos e lenços para cobrir o rosto em público e conter a disseminação da doença. No Brasil, foi lançada uma campanha para estimular a população a produzir suas próprias máscaras e usá-las sempre que sair de casa. O uso do equipamento, porém, não substitui medidas preventivas fundamentais, em especial o distanciamento social e a higienização das mãos com água e sabonete ou com álcool a 70%.

TECNOLOGIA A FabLab, fábrica experimental da Prefeitura de Curitiba, produz escudos faciais de material plástico em impressoras 3D: proteção para trabalhadores (Crédito:EDUARDO MATYSIAK)

Tipos de Máscaras

As máscaras que passaram a ser promovidas mundo afora são as de cotton, de tecido 100% algodão, de tecido antimicrobiano e de TNT (tecido-não-tecido), todas matérias-primas de baixo custo que podem ser facilmente obtidas e permitem, inclusive, que sejam fabricadas em casa. Roupas em bom estado de conservação podem ser utilizadas para produzi-las. Além da caseira, há outros dois tipos de máscaras: as cirúrgicas e as N-95, que, no Brasil, recebem a sigla PFF-2 e contam com um respirador acoplado. Essas continuam destinadas a uso profissional por causa da escassez atual do produto no mercado global. Um dos objetivos é evitar que haja concorrência entre as pessoas saudáveis ou assintomáticas com os profissionais de saúde e os doentes pelos equipamentos de proteção. As cirúrgicas devem ser usadas prioritariamente nos hospitais por doentes, médicos e enfermeiros e as N-95, exclusivamente por profissionais. “A máscara caseira é muito melhor do que nada e, com ela, você coloca muito menos a mão na boca e no nariz, evitando o contagio”, afirma a médica Raquel Stucchi, infectologista do Hospital da PUC, em Campinas.

As máscaras caseiras são recicláveis e podem ser lavadas depois do uso. Segundo Raquel, elas são capazes de reter até 70% das gotículas, mas não devem ser utilizadas por mais de duas horas ou até ficarem úmidas. As cirúrgicas e não cirúrgicas descartáveis funcionam como uma barreira para a entrada de gotículas de pacientes infectados e admitem uma única utilização. As N-95 duram até 30 dias e se estiverem bem vedadas garantem uma proteção de até 99%. É preciso que o equipamento esteja selando a pele e a pessoa que vá utilizá-lo não pode ter barba porque os pelos faciais facilitam a entrada de microorganismos.

Um estudo feito pelo Centro de Inovação da USP (InovaUSP), em São Paulo, chamado de “Projeto Respire!”, está analisando todas as matérias-primas usadas em máscaras de proteção individual e evidenciam os benefícios do uso do equipamento. O vírus da Covid-19 mede, em média, 120 nanômetros (um nanômetro é um bilhão de vezes menor que um metro), e é fundamental que o material da máscara seja capaz de filtrá-lo tanto na saída como na entrada do ar. Quando lançado pela respiração, o vírus fica em suspensão no ambiente e o objetivo da proteção é evitar que penetre no nariz ou na boca do usuário. A eficiência de cada material varia de 45%, no caso das máscaras de algodão de camiseta, e vai até 97%, para as N-95, se estiverem totalmente vedadas. Máscaras cirúrgicas de TNT e de outros materiais tem uma eficiência de filtragem que pode variar de 60% a 95%. Com base nesses estudos, o “Projeto Respire!” prevê a produção de 1 milhão de máscaras que serão confeccionadas por grupos e cooperativas de costureiras e distribuídas para 8 mil profissionais de saúde em hospitais e centros médicos.

O uso de máscaras contribui para reduzir a velocidade de contágio, mas não substitui medidas preventivas como o distanciamento social e a higienização das mãos

Além do estímulo para a produção caseira e artesanal, a corrida para obtenção do equipamento está fazendo com que as empresas especializadas e não especializadas ampliem a fabricação do produto. Há inúmeros tutoriais na internet ensinando como ele deve ser feito, com três camadas e o elástico. Oficinas de costura trabalham a todo vapor na sua produção. E alguns hospitais estão instalando suas próprias oficinas para garantir a disponibilidade de material de proteção. No Beneficência Portuguesa, em Campinas, há um grupo de 14 costureiras dedicadas à tarefa. Segundo Waib, a produção interna já cobre 50% das necessidades do hospital. “Já soube de um colega que levou um rolo de tecido-não-tecido para uma escola de samba produzir máscaras”, diz o epidemiologista. Ele afirma que, encontrando o material, é bem fácil de fabricar o equipamento. “A gente está esperando que a grande indústria aumente sua produção, mas, enquanto isso não acontece, várias providências podem ser tomadas”, afirma.

Uma resolução (356/2020) do Ministério da Saúde publicada no final de março, que dispõe sobre a fabricação e importação de máscaras cirúrgicas, respiradores particulados N-95 e PFF-2 ou equivalentes, óculos de proteção e escudos faciais, liberou as normas técnicas e dispensou excepcional e temporariamente os potenciais fabricantes de autorizações sanitárias para produzir o equipamento. Confecções como Malwee e a Hering planejam iniciar a produção de máscaras. A Hering estuda o assunto, mas ainda não definiu como esta operação vai funcionar. A Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo adquiriu insumos, tecido e elásticos, para que presidiários do estado produzam 320 mil máscaras descartáveis destinadas para procedimentos simples (não-cirúrgicos). A fabricação começou na semana passada e a previsão é que sejam confeccionadas 26 mil máscaras por dia. Cerca de 200 presos, homens e mulheres, participam do projeto. O custo de cada máscara é de R$ 0,80. No Amazonas, o governo local tomou uma iniciativa semelhante.

COSTUMES No Japão, o uso de máscaras pela população nos espaços públicos é generalizado: sinal de boa educação (Crédito:TOMOHIRO OHSUMI)

Mudança cultural

A maior fabricante de máscaras N-95 no Brasil, a multinacional 3M, anunciou que está se mobilizando em várias partes do mundo “para ampliar sua produção do equipamento ao máximo e atender ao crescimento da demanda”. Por aqui, a empresa contratou 40 novos funcionários e tem operado 24 horas por dia e 7 dias por semana. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou na terça-feira 7 que o governo federal comprará toda produção local da 3M. “A gente vai adquirir a capacidade de produção total dessa fábrica no Brasil”, disse Mandetta. “A gente imagina que vai conseguir ter de 1,5 milhão a 1,8 milhão de máscaras para o nosso mercado confirmadas no mês de abril. Depois, nos meses de maio e junho. Quer dizer, a gente vai ter um abastecimento razoável”. Mandetta também pediu que pessoas que tenham máscaras N-95 em casa as doem para os hospitais e utilizem, no lugar, equipamento de proteção caseiro ou descartável.

Se em alguns países asiáticos, as máscaras podem ser consideradas um símbolo de boa educação e respeito ao próximo, no Ocidente cobrir o rosto tem sido, até agora, uma prática pouco usual e cercada de preconceitos étnicos-religioso. A prática no Japão, por exemplo, disseminou-se a partir de 2002, quando eclodiu a epidemia de Síndrome Respiratória Grave (SARS) e se intensificou, em seguida, com a gripe aviária e a gripe suína. O medo fez com a população aderisse em massa ao equipamento. E, como acontece agora, houve escassez de máscaras, que passaram a ser importadas da China. Preocupadas com novos surtos, as pessoas passaram a estocá-las e seu uso se tornou um hábito.

A jornalista Carolina Giacomini dedica seu tempo livre para fabricar máscaras em casa usando tecidos e TNT (Crédito:FOTOARENA)
FOTOARENA

A partir de agora a prevenção contra doenças respiratórias se tornará obsessiva também no Ocidente e o mesmo que aconteceu no Brasil se repetirá em vários países. Haverá uma mudança cultural e as máscaras, um recurso altruísta, deverão ser incluídas como mais um item básico de vestuário e, inclusive, como um produto da moda. Mesmo com o fim da pandemia de coronavírus, esse quadro tende a permanecer, principalmente durante as mudanças de estação, quando aumenta a incidência de doenças respiratórias. No começo do outono, exatamente o momento atual, muita gente acaba tendo alguma tosse e, nessa época, sazonalmente, apresentam sintomas de gripe. Antes associadas apenas a países da Ásia, como China e Japão, agora as máscaras passarão a dominar as paisagens urbanas dos Estados Unidos, do Brasil e dos países da Europa. O sentimento de autopreservação vai causar uma mudança nos costumes. Evidentemente, o equipamento não substitui as recomendações fundamentais de lavar as mãos frequentemente e manter o distanciamento social. Mas, desde que sejam bem usadas, não há mais dúvidas de que elas são um eficiente obstáculo contra a infecção pelo coronavírus.

PENITENCIÁRIAS Presas do Amazonas participam de força-tarefa para produzir máscaras descartáveis (Crédito:Divulgação)

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