Marina Monzillo e Thaís Botelho Foto Reprodução Boni, que comandou a Rede Globo por 30 anos e é considerado um dos grandes nomes da televisão brasileira, tinha apenas 17 anos quando conheceu Hebe, e sua trajetória profissional correu paralela à da grande dama, mas a amizade dos dois foi regada a muito vinho, churrasco e selinhos, é claro. Como conheceu Hebe Camargo? Na Rádio Nacional de São Paulo, no começo dos anos 1950. Eu tinha cerca de 17 anos e trabalhava com o Manoel de Nóbrega. Ela deveria ter em torno de 25 anos e era linda com a sua sobrancelha de taturana, e já tinha aquele sorriso franco. Fazia sucesso como cantora. Ela quis saber o que eu fazia e, depois disso, sempre quando me via, dava uma palavra de incentivo. Hebe ajudava a todos e não gostava de ver ninguém sério e preocupado. Que tipo de relação vocês mantiveram nestes anos todos? Eu fui para a TV Tupi e só a encontrei de novo quando ela iniciava sua carreira de apresentadora na TV Paulista, canal 5, no programa O Mundo é das Mulheres. Tornou-se uma estrela de forma meteórica. Ela me surpreendeu porque se lembrava de mim. A Hebe casou e deixou a televisão, retornando mais tarde na Record. Eu jantei várias vezes com ela tentando contratá-la para a Tupi, mas a Record era uma espécie de família, e o sucesso da Hebe era tão grande que ela não pensava em sair de lá. Apesar disso, nos víamos muitas vezes e dávamos boas risadas. A Hebe foi para o SBT e eu tocava a Globo, mas continuamos amigos. Às vezes, ela sabia que eu estava em São Paulo e esticávamos um papo à noite. Ela queria aprender tudo sobre vinhos. Você tentou levá-la para a Globo? Por que não deu certo? Uma história curiosa ocorreu em um restaurante paulista. Eu perguntei a Hebe por que ela jamais tinha mostrado interesse em ir para a Globo. Ela soltou aquela gargalhada monumental e me deixou sem jeito, dizendo: ?Eu? Tá louco? Você é que já deveria ter me convidado há muito tempo.? Eu perdi o rebolado e perguntei: ?Começamos quando?? A Hebe, carinhosamente, me disse que estava brincando. Explicou que o Silvio Santos dava tudo o que ela queria, que se apegava às emissoras e às pessoas com quem trabalhava e, o mais importante, tinha medo que nós quiséssemos modificar o seu estilo, na Globo. Pegou minha mão e disse: ?Estou muito feliz lá. Mas obrigada pelo carinho.? Hebe colecionava histórias engraçadas e curiosas. Você compartilhou alguma com ela? Nos víamos muitas vezes na pizza do Faustão. A Hebe sempre elegante e deslumbrante. Nas ocasiões, vinham as histórias da vida pobre em Taubaté e ela as contava de forma genial. Era uma comediante nata. Quando se juntava com a Dercy Gonçalves, a Nair Bello e a Lolita Rodrigues, formavam uma turma que não deixava ninguém ir embora e matava todos de rir. A Hebe era a personificação da alegria. Levei a Hebe, em um fim de ano para Angra do Reis e fiz uma carne especial para a ela. Ela e a Lou, minha mulher, são muito parecidas no temperamento. As duas são piadistas e adoravam molecagem. A Hebe apareceu no churrasco com um brilhante que iluminava mais que o sol de Angra. No final, a Lou veio com um anelzinho humilde e propôs a Hebe: ?Vamos brincar de passar anel? Você me passa o seu e eu te passo o meu?. A Hebe não se fez de rogada: ?Que é isso, minha filha? Esse é apenas o meu brilhantinho de praia.? Ela chegou a lhe dar um selinho? Tínhamos o hábito de praticar o selinho inventado por ela. Nos restaurantes, nos encontros sociais ou na minha casa. Quando foi seu último encontro com ela? Foi no lançamento do meu livro. Ela foi e arrasou como sempre. Ganhei um belo selinho. Não sei como os amigos poderão viver sem a surpreendente Hebe. Ela amava a vida e parecia ser eterna. No momento preparava-se para retornar ao SBT e isso seria um renascimento para ela. Mas não deu tempo. Uma pena para todos. Seria uma festa maravilhosa que a Hebe merecia. Todos estariam lá. Uma glória. Só não fico amargurado porque aprendi com a Hebe que, de qualquer forma, a vida é bela.