Ciência

Einstein estava certo

A primeira foto da história de um buraco negro comprova que o genial físico alemão mais uma vez acertou ao prever, em sua teoria, a existência de um dos mais singulares astros do universo

Einstein estava certo

Um círculo escuro no meio de um disco resplandecente: a imagem de um buraco negro foi apresentada nesta quarta-feira ao mundo, a primeira na história da astronomia - EUROPEAN SOUTHERN OBSERVATORY/AFP

HISTÓRIA A cientista Katie Bouman foi uma das envolvidas na pesquisa: felicidade ao se deparar com a primeira imagem do astro surgida em seu computador (Crédito:Divulgação)

Na manhã da quarta-feira 10, professores e estudantes lotaram o auditório do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo para acompanhar a divulgação de uma grande descoberta que havia sido feita na área pelo consórcio científico internacional chamado Event Horizon Telescope (EHT). Eles estavam ansiosos. O anúncio seria realizado simultaneamente no mundo todo, o que indicava se tratar realmente de um feito importante. Quando finalmente eles viram pelo telão o que era a novidade, vibraram como poucas vezes na vida. Ali, na frente deles, estava a primeira foto de um buraco negro, um corpo astronômico tão singular e ao mesmo tempo tão valioso para a ciência que ver, finalmente, uma imagem comprovando sua existência, foi como sentir que todo o esforço da humanidade para entender o universo valeu a pena. Até hoje, havia evidências de que eles existiam, mas não certeza. O retrato mostrando o astro de centro negro envolvido por uma aura de luz mostrou que a ciência estava certa. E que, mais uma vez, o físico alemão Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade também.

Einstein foi o primeiro a levantar a hipótese da existência dos buracos negros. Meio sem querer, mas foi. Nas fórmulas que substanciaram sua teoria de que a força da gravidade era tamanha que poderia inclusive fazer com que espaço e tempo deixassem de fazer sentido, havia o resultado inevitável de que, se isso fosse realmente verdade, teria de haver corpos tão densos e profundos que nada deles escaparia. Nem a luz. Quem disse isso foi seu colega, o físico alemão Karl Schwarzschild, em 1916, um ano depois de Einstein publicar a Teoria da Relatividade Geral – generalização da Teoria da Relatividade Restrita, anunciada por ele em 1905. Karl havia trabalhado sobre os escritos do amigo e chegara a esta conclusão. Einstein, a princípio, duvidou do resultado, de tão bizarro que lhe parecia existir um astro com tais características. Hoje, o mundo viu que, por mais absurdo que lhe parecesse à época, ele estava certo. “É extraordinário que a imagem que observamos seja tão semelhante àquela que obtemos de nossos cálculos teóricos. Einstein acertou de novo”, afirmou Ziri Younsi, da University College London, na Inglaterra.

Epopeia científica

O cientista foi um dos duzentos que integraram a iniciativa do EHT, uma das mais bem-sucedidas empreitadas científicas da história. O consórcio reuniu pesquisadores do mundo todo com o objetivo de captar o retrato do buraco negro. Foi uma odisseia. Para obter o que queriam, era preciso que os cientistas dispusessem de um radiotelescópio do tamanho da Terra, algo obviamente impossível. A solução foi criar uma rede de telescópios por meio da qual fosse possível desenvolver, virtualmente, esse radiotelescópio gigantesco. Foram escolhidos serviços localizados em seis pontos do planeta. Durante cinco dias de abril de 2017, todos foram sincronizados para coletar dados do centro da galáxia M87, localizada a 55 milhões de anos-luz da Terra.
As informações foram transmitidas para uma central, nos Estados Unidos. Um total de quatro milhões de gigabytes de dados. Mesmo assim, era impossível que toda a superfície da Terra tivesse sido contemplada. As peças que faltavam acabaram obtidas por meio de um programa de inteligência artificial que completou a imagem. Quem liderou a criação do sistema de algoritmos foi Katie Bouman, de 29 anos. No mesmo dia do anúncio, ela publicou no Facebook uma foto sua deparando-se com o primeiro modelo de imagem dos buracos negros que surgiu em seu computador. “Observando, incrédula, a primeira imagem que já fiz de um buraco negro enquanto o sistema de inteligência artificial estava em processo de construção”, escreveu. Além da imagem construída com ajuda da inteligência artificial, foram tiradas mais quatro imagens reais.

Para a ciência, 10 de abril de 2019 foi um dia histórico. “Será lembrado para sempre. Sempre pensamos que a Física, este livro da natureza que a humanidade escreve, só faria sentido se comprovássemos a existência dos buracos negros. Havia evidências disso, mas faltava a foto”, afirma o astrofísico Rodrigo Nemmer, professor da Universidade de São Paulo. Agora não falta mais.