Eike, Bolsonaro e mais: quem são os brasileiros citados nos arquivos do caso Epstein

Menção não necessariamente implica em crimes ou relação com o empresário americano

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Jeffrey Epstein Foto: Divulgação

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou, no final de janeiro, um novo lote de arquivos relacionados ao caso Jeffrey Epstein – empresário responsável por uma rede global de tráfico humano e abuso sexual. Os documentos chamaram atenção por incluírem nomes de brasileiros, tendo em vista o trânsito de Epstein entre elites de diferentes países.

Entre e-mails, extratos bancários, imagens e anotações internas, o material é a maior remessa divulgada até o momento e cita figuras como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jair Bolsonaro (PL) e Eike Batista. Além disso, detalhes sobre a atuação de Epstein no Brasil também foram esmiuçados.

Cabe ressaltar que os arquivos não indicam, por si só, crimes cometidos por todas as pessoas citadas. Autoridades americanas e veículos internacionais têm ressaltado que constar nos documentos não significa envolvimento em ilícitos.

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Relação de Epstein com o Brasil

A ponte entre o caso Epstein e o Brasil se dá por meio do francês Jean-Luc Brunel, indicado como uma das figuras centrais do esquema e braço direito do empresário. Brunel era agente de modelos e fundador da agência MC2, sediada em Miami, que recebeu financiamento de Jeffrey Epstein.

Segundo as investigações, o francês atuava como “aliciador” de garotas e dizia ser capaz de conseguir prostitutas para Epstein a qualquer momento. Brunel chegou a realizar viagens ao Brasil em busca de garotas de programa – parte delas menores de idade, entre 13 a 15 anos – a serem enviadas aos Estados Unidos.

Reportagens internacionais, como as do jornal britânico The Guardian, reuniram denúncias de mulheres que acusaram Brunel de abusos ocorridos nas décadas de 1980 e 1990. Segundo esses relatos, adolescentes de diferentes países teriam sido levadas aos EUA com vistos de modelo e, depois, exploradas sexualmente. Brunel foi preso na França em 2020 e morreu em uma cela em Paris em 2022, enquanto aguardava julgamento.

Os documentos liberados pelo governo americano também mencionam o Brasil de forma mais generalizada. Um depoimento do FBI menciona um “grande grupo brasileiro”, sem identificar nomes ou explicar o papel dessas pessoas.

Veja os brasileiros citados:

Reinaldo Avila da Silva

Peter Mandelson (esquerda) e o marido Reinaldo Avila da Silva (direita)

O brasileiro Reinaldo Avila da Silva mantém uma relação de longa data com o ex-embaixador britânico Peter Mandelson, com quem se casou em 2023. Os documentos mostram trocas de e-mails entre Reinaldo e Epstein, além de registros de transferências bancárias feitas pelo financista.

As mensagens datam de 2009, período em que Epstein já havia sido condenado nos Estados Unidos e cumpria pena em regime semiaberto. Em um dos e-mails, Reinaldo pede ajuda financeira para custear despesas de um curso de osteopatia. No texto, ele lista gastos, informa dados bancários e agradece qualquer apoio que pudesse receber. Horas depois, Epstein responde afirmando que faria a transferência. No dia seguinte, Reinaldo envia uma mensagem de agradecimento.

Registros bancários e comunicações internas indicam que Epstein autorizou pagamentos em libras e dólares relacionados a esse pedido. Em mensagens encaminhadas ao contador, o financista menciona valores e instruções de envio. Em outro momento, há referência a pagamentos mensais.

Jair Bolsonaro

Ex-presidente Jair Bolsonaro

Ex-presidente Jair Bolsonaro

O nome de Jair Bolsonaro aparece em trocas de mensagens atribuídas a Jeffrey Epstein e Steve Bannon – ex-conselheiro de Donald Trump –datadas de 2018, durante o período eleitoral brasileiro. Nos diálogos, Bolsonaro é citado de forma elogiosa, descrito como um político que teria “mudado o jogo” no Brasil.

“Bolsonaro mudou o jogo. Nenhum refugiado quer entrar. Bruxelas não lhe diz o que fazer. Ele só precisa reativar a economia. MASSIVO”, escreveu Epstein.

Em outro trecho, as conversas mencionam a possibilidade de aproximação de Bannon com o entorno de Bolsonaro, incluindo a hipótese de atuação como conselheiro informal. O ex-presidente já negou publicamente qualquer vínculo ou articulação com Bannon, classificando as especulações como falsas.

As menções não indicam contato direto entre Bolsonaro e Epstein, nem relação com os crimes atribuídos ao financista. Apesar disso, as mensagens mostram que a campanha presidencial brasileira era observada e debatida em círculos políticos internacionais ligados à direita.

Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva

A nova leva de arquivos incluem citações ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva feitas pelo linguista e filósofo Noam Chomsky em correspondência com Epstein de setembro de 2018. Nessas mensagens, Chomsky afirma ter visitado Lula na prisão em Curitiba no contexto do movimento Lula Livre e descreve o ex-presidente como “o prisioneiro político mais importante do mundo”, qualificando as acusações contra ele como “risíveis”.

Em outra ocasião, Epstein afirma ter recebido uma ligação de Chomsky com o petista na linha, mas a Presidência da República negou que o contato telefônico tenha ocorrido, alegando que isso burlaria as regras de carceragem da Polícia Federal

Assim como no caso de Bolsonaro, as menções a Lula nos documentos não envolvem mensagens diretas entre o presidente brasileiro e Epstein, nem indicam qualquer relação pessoal ou institucional entre eles.

Eike Batista e Luma de Oliveira

O nome da ex-modelo brasileira Luma de Oliveira e do seu ex-marido, o empresário Eike Batista, aparecem em uma troca de e-mails de agosto de 2012 entre Epstein e Jean-Luc Brunel.

Na mensagem, Epstein pergunta a Brunel sobre “a namorada de Eike Batista”, e o francês responde que havia mencionado “Luma de Oliveira”, dizendo que Eike “era ou é casado com ela”. À época da correspondência, Luma de Oliveira e Eike Batista já estavam separados há quase uma década, após um casamento de 13 anos que terminou em 2004.

A gênese da menção envolve contatos de Epstein sobre relações no mundo da moda e dos negócios, tendo em vista a atuação de Brunel como aliciador de modelos no Brasil para serem prostitutas no exterior. O empresário Eike Batista se pronunciou sobre o caso e garantiu nunca ter conhecido Jeffrey Epstein.

“Antes que algum adversário se apresse a fazer alguma insinuação, gostaria de deixar claro que não conheço e nunca falei com o Epstein. E, mesmo se tivesse conhecido, entendo que ele jamais me convidaria para as festas que, supostamente, ele promovia. Quem me conhece sabe que sou avesso a badalações”, disse ao jornal O Globo.

Arthur Casas

O arquiteto brasileiro Arthur Casas também é citado em trocas de e-mails ocorridas em 2016. As mensagens envolvem uma assistente do arquiteto e Lesley Groff – que se apresentava como assistente pessoal de Epstein – e tratam da possibilidade de uma reunião por videochamada. Em outra comunicação, uma pessoa identificada como Jean Huguen encaminha a Epstein informações sobre o trabalho de Casas, sugerindo interesse profissional no arquiteto naquele período.

As conversas também mencionam uma eventual visita de Arthur Casas à Ilha de Saint James, no Caribe, então propriedade de Epstein e conhecida por ser palco privado dos abusos e crimes do empresário. Em nota, o escritório do arquiteto afirmou que foi procurado naquele ano para apresentar uma proposta preliminar de projeto arquitetônico relacionado a uma possível reforma na “Ilha Epstein”.

Segundo a alegação, Casas realizou uma visita técnica ao local, em caráter estritamente profissional, acompanhado de uma arquiteta de sua equipe, sem qualquer outro tipo de vínculo. À época, Epstein já havia se declarado culpado por crimes sexuais envolvendo menores em um processo encerrado em 2008.