Edição nº2548 19/10 Ver edições anteriores

Efeito Dominó

Com a greve dos caminhoneiros, acabou a gasolina Acabando a gasolina, os carros, sem uso, ficaram sem bateria. Sem bateria e carros parados, as indústrias de baterias e de peças e acessórios faliram. A queda na demanda por combustível e plástico, evidentemente, disparou uma crise no setor petrolífero e esvaziou as vendas no mercado interno. Com vendas em queda, somadas aos problemas recentes, as ações da Petrobras despencaram em todo o mundo até, finalmente, a empresa falir. As empresas multinacionais de petróleo, assustadas, foram embora. Sem petróleo, ficou inviável a fabricação de máquinas industriais e ferramental, o que causou um racha no parque industrial brasileiro, a começar pelas siderúrgicas e extração de minérios. Seguiu-se uma crise energética nunca vista, com sucessivos apagões.

Esse contexto gerou uma recessão de proporções inéditas. Sem indústria, o desemprego fugiu do controle. O número astronômico de desempregados fez o consumo despencar com um efeito devastador no comércio. O comércio de rua, mercados, supermercados e os shoppings fecharam as portas. Com o fim do comércio, a indústria da alimentação, dos bens duráveis e boa parte do agronegócio foi para o beleléu. Produtores agrícolas retornaram à agricultura de subsistência. Agricultura inviável, lá se foi também a pecuária.

O campo, a locomotiva do antigo País, parou de exportar, resultando num PIB de dois dígitos. Negativos. Com a crise da energia, o frio no sul tornou-se insuportável, obrigando a população a migrar para o nordeste, causando um repentino e surpreendente aumento da oferta de imóveis no sul. O mercado imobiliário entrou em colapso. Sem mercado imobiliário, sem indústria e sem comércio, o sistema bancário quebrou. De um dia para o outro, praticamente.

Sem ter como ou onde comprar, as pessoas usaram suas roupas até acabarem. Quando acabaram, fazer o quê? Tiveram que abandonar esse antigo hábito da civilização e aderiram ao nudismo. Mais um motivo que justificou o êxodo rumo à regiões de clima mais ameno. Sem dinheiro, a população nua passou a negociar e aderiu ao escambo. Nus, sem dinheiro, região nordeste superpopulosa, o País desapareceu como destino turístico.

Não só isso. Desapareceu como nação. Foi esquecido pelo mundo. A superpopulação inviabilizou a educação e a saúde, pois não havia mais escolas e hospitais que dessem conta de tanta gente. Escolas, a bem da verdade, se tornaram desnecessárias já há algum tempo, pois, sem um sistema econômico ou de produção, os recursos ficaram mais e mais escassos. Os conhecimentos passaram a ser transmitidos de pai para filho. Já o fim dos hospitais fez surgir milhares de curandeiros. Os “pajés”.

Aos poucos, a linguagem escrita desapareceu. Sem energia, escolas, saúde, trabalho, roupas, empregos e um sistema monetário, a população começou a perder o que restava de civilidade, tornando a vida nas grandes cidades impraticável. No interior, começaram a surgir pequenos aglomerados, que foram chamados de “tribos”. Sem tijolos, cimento, ferramentas, as tribos se caracterizavam por grupamentos de pequenas cabanas chamadas de “ocas”. Como o País se organizou em tribos, um governo central não teve mais sentido para existir. Assim, cada tribo passou a ter seu próprio líder, chamado de “cacique”. Sem muitos recursos, a sobrevivência nas tribos exigia uma nova ética. Aqueles que não aceitavam as novas regras, os que roubavam, estupravam, enganavam ou mentiam eram expulsos e pereciam nas selvas. A seleção natural se ocupou em transformar as tribos em grupos de brasileiros felizes e produtivos. Os “índios”, como ficaram conhecidos.Uma sociedade pura em que todos viviam em paz e harmonia. A história da corrupção, dos políticos canalhas, da bandalheira, que agora era transmitida oralmente de geração para geração, passou a ser considerada apenas uma fábula de personagens tão absurdos que parecia improvável que tivessem existido de verdade. Menos os caminhoneiros. Esses foram transformados em deuses. Até que um dia, do alto de um coqueiro, um índio avistou uma caravela vinda de Portugal.
Aí, ferrou tudo de novo.

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Mentor Neto

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