PANDEMIA * 2020

As lições da peste de 1918

Quinhentos milhões de pessoas infectadas em todo o mundo durante a pandemia ocorrida há um século — e que os infectologistas chamam de “o maior holocausto médico da história” — nos deixaram lições para o inferno marcado pela Covid-19. A primeira é que na luta contra os vírus que sofrem mutações genéticas radicais não se pode reagir com lerdeza e tibieza. O vírus do passado foi uma variação do Influenza H1N1, batizado como gripe espanhola e que detonou um surto no segundo semestre de 1918, já no fim da Primeira Guerra Mundial. Durou até 1920, e para se ter ideia de sua ação predadora basta um cotejamento: o conflito armado matou cerca de nove milhões de pessoas, entre militares e civis, enquanto a peste ceifou pelo menos sessenta milhões de vidas. É isso o que se precisa evitar com o tsunami pandêmico que, nesse momento, faz a Terra tremer.

Na periferia, a ficha ainda não caiu

Na Rua Coronel Silva Castro, na favela de Heliopólis, a vida segue inabalada. Moradores conversam em grupos, caminham juntos até o supermercado. No sábado, 29, o tradicional rachão na quadra improvisada aconteceu normalmente. O morador Danilo Vieira, 24 anos, diz que seus posts sobre a doença no grupo de WhatsApp “Ação Comunitária de Heliópolis” têm mais de 800 visualizações — mas isso não é o suficiente para as pessoas mudarem os hábitos. “Passo as informações, mas por enquanto isso não surtiu efeito.”

O antídoto contra Bolsonaro

O fato do presidente Bolsonaro ser apontado como o único líder mundial a ridicularizar os efeitos do coronavírus, e até ter sido chamado de “Bolsonero” pela revista The Economist, uma das mais conceituadas do Reino Unido — em referência ao imperador romano que ria enquanto tocava fogo em Roma —, transformou o capitão em inimigo número um na luta travada contra a Covid-19 pelos governadores, com João Doria (São Paulo) à frente. Desde que a primeira morte pelo vírus foi registrada em São Paulo, no dia 17 de março, Doria determinou, à revelia de Bolsonaro, uma gradual quarentena para todos os 46 milhões de paulistas. Primeiro, suspendeu as aulas nas escolas e, logo em seguida, mandou fechar todo o comércio, shoppings e serviços não essenciais, sendo seguido pelos demais governadores. Doria virou um antídoto contra Bolsonaro e suas atitudes irresponsáveis de mandar todo mundo voltar ao trabalho, o que, se tivesse sido obedecido pela população, teria levado o País a números devastadores como os já registrados nos EUA, Espanha, Itália e China.

Está na hora de começarmos a falar sobre Mourão

Jair Bolsonaro continua resistindo a combater a epidemia do coronavírus, na contramão do mundo. Mais que isso, aproveita para radicalizar seu discurso contra os outros Poderes. Está cada vez mais isolado e perde as condições políticas de liderar o País. Com isso, cresce a percepção de que é necessária uma alternativa para driblar a paralisia e recolocar o País nos trilhos após a crise — que é ao mesmo tempo econômica, sanitária, institucional e social. Ao se colocar como um obstáculo para a condução do País, a alternativa constitucional que se impõe é a ascensão do vice Hamilton Mourão. De uma mera hipótese, a tese do afastamento já é tratada em Brasília como uma possibilidade concreta.

O vírus que tenta destruir Mandetta

É nos jogos difíceis que os craques aparecem. Com um discurso direto e sem floreios e apoiado em pesquisa científica, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, vem se destacando ao trazer alguma racionalidade para um governo caótico e com aversão aos métodos. Numa crise terrível e em ambiente adverso, ele tem jogado um bolão. O que deveria, porém, ser simplesmente uma boa notícia: contar com um profissional decisivo na hora certa, virou um fator de perturbação para o presidente Jair Bolsonaro, que foi tomado pela inveja do protagonismo do subordinado. Bolsonaro não se conforma com a mudança natural da direção dos holofotes e tenta dar um carrinho maldoso no craque do próprio time.

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