Comportamento

E agora, Pantanal?

Recuperação do bioma, que teve 29% de sua área destruída pelas queimadas, será lenta e difícil e pode demorar 50 anos. Vida animal foi duramente afetada e diversas espécies podem ter desaparecido

Crédito: Lawrence Wahba

MORTE Destruição sem precedentes da fauna e da flora: espécies não descritas pela ciência podem ter desaparecido (Crédito: Lawrence Wahba)

Foi na virada de outubro para novembro que vivi o momento mais triste de meus 28 anos de carreira como documentarista de natureza. Estava na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPM) Acurizal gravando uma sequência para um documentário sobre os incêndios que destruíram 85% da reserva quando encontrei um esquilo carbonizado num pé de acuri, fruto essencial para vários animais. O cinegrafista César Leite pediu que eu desse dez passos para trás e viesse andando em direção à pequena carcaça para fazer meu depoimento. Antes do quinto passo meus olhos não puderam acreditar no que viram e apesar de eu ser bem experiente soltei um berro e não pude conter o choro.

Parecia que haviam explodido uma bomba, não há palavras para descrever aquele cenário: cadáveres carbonizados de famílias de macacos, esquilos, serpentes, veados, mutuns de penacho, tucanos, arancuãs, passarinhos e sei lá mais quantos animais lado a lado, me remetendo à cena dos corpos petrificados pela lava do Vesúvio, em Pompeia. Eu não conseguia entender tamanha concentração de animais mortos, mas um piloto de helicóptero do Ibama me explicou que o fogo vem numa linha e com a virada do vento forma um circulo que “laça” a mata e vem se fechando. Os animais em pânico vão fugindo para o centro dele, onde morrem juntos. Imaginar tamanha dor e desespero foi o que mais me doeu.

A falta de estrutura para combate aos incêndios e para resgate animal é apenas mais uma face do abandono a que o Pantanal está sujeito. A seca deste ano, considerada a mais severa dos últimos 47 anos, junto com a falta de fiscalização e a queima irregular praticada por alguns fazendeiros e ribeirinhos começaram uma onda de fogo sem precedentes. O Pantanal bateu recorde sobre recorde de focos de incêndio, indo de 1.691 em 2018, para pouco mais de 10.000 em 2019 e mais de 21 mil neste ano. Paredes de mais de 120 km de extensão varreram terras indígenas e unidades de conservação.

SOCORRO Brigadistas descansam depois de uma ação de combate ao fogo e veterinários tentam salvar animal ferido: processo de recuperação do Pantanal dependerá mais de ações futuras do homem do que da própria natureza

Nada será como antes

“A vegetação vai se recuperar com o tempo, primeiro as gramíneas, depois as árvores, mas falando em fauna, em pequenos animais, nada será como antes”, lamenta o coronel Ângelo Rabelo, diretor institucional do Instituto Homem Pantaneiro, responsável pela gestão de várias áreas na região, entre elas a RPPN Acurizal. “É capaz de termos perdido espécies ainda não descritas pela ciência. Uma expedição de 10 dias no Amolar identificou novas espécies de insetos. Outras podem ter desaparecido antes que as conhecêssemos”, completou.

O recorde de focos de incêndio destruiu uma área de 43 mil km no Pantanal, maior do que a Suiça, e parte das cinzas de 29% do bioma serão em breve levadas aos rios e lagoas. “As consequências disso são imprevisíveis, seguramente essa quantidade de cinzas vai afetar a qualidade da água e interferir nos processos naturais dos peixes, mas não temos como prever a dimensão do problema”, afirma o professor José Sabino, PhD em Ecologia da Uniderp e especialista em ictiofauna do Pantanal “Teremos de monitorar a evolução dos acontecimentos medindo a qualidade da água constantemente”. Considerando a quantidade de animais que comem peixes, principalmente aves, certamente os reflexos do problema irão afetar os demais elos da teia alimentar.

Conversei com vários cientistas e a grande maioria afirmou que a dimensão do desastre não tem precedentes e que é preciso muito estudo para estimar suas consequências. Segundo Cátia Nunes da Cunha, doutora em Ecologia da Vegetação da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), serão necessários até 50 anos para a recuperação total da vegetação. “Mas garantir se e quando o Pantanal vai se recuperar dependerá mais das nossas ações futuras do que da natureza em si”, afirmou. A grande questão é se, a partir de agora, seremos mais responsáveis com a conservação de um bioma tão importante para o Brasil e para o mundo. Recuperar o Pantanal se transformou em um importante desafio coletivo.

Veja também

+ Cantora MC Venenosa morre aos 32 anos e família pede ajuda para realizar velório
+ Homem salva cachorro da boca de crocodilo na Flórida
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ Cirurgia íntima: quanto custa e como funciona
+ Idoso morre após dormir ao volante e capotar veículo em Douradoquara; neto ficou ferido
+ MasterChef: Fogaça compara prato com comida de cachorro
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel