Brasil

“É a economia, estúpido!”

Cidades que têm a situação econômica estável tendem a reeleger os prefeitos ou seus sucessores. Os eleitores querem que os municípios tenham dinheiro em caixa para resolver seus problemas: desemprego e inadimplência

Crédito: Suamy Beydoun

SUPERÁVIT O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, tem em caixa R$ 19,2 bilhões (Crédito: Suamy Beydoun)

OPOSIÇÃO Eduardo Paes apresenta alternativas para uma prefeitura falida (Crédito:Thiago Ribeiro)

Brasil vai às urnas para decidir quem serão os prefeitos municipais. Nos últimos anos a questão da ética e o combate à corrupção predominaram o discurso dos candidatos. Mas nesta eleição o discurso está mudando. A economia vem determinando o sucesso. Aqueles que se aventuraram por discursos não pragmáticos, que não levam em conta o cotidiano do eleitor, tendem a perder espaço. Em 1992 o marqueteiro da campanha do presidente americano Bill Clinton já identificava a economia como ponto de partida. James Carville forjou a frase: “É a economia, estúpido!”, numa aposta que venceria o George Bush. A vida econômica das pessoas falou mais alto.

MARKETING Na campanha presidencial americana de 1992, o publicitário James Carville (à dir.) provou que seu prognóstico era mais do que otimismo. Ele comprovou a tese de que as questões econômicas decidem a eleição. Elegeu o democrata Bill Clinton frente ao republicano George Bush que apostava nas glórias da Guerra do Golfo em 1991 para vencer. (Crédito:MARIO TAMA)

As equipes de importantes candidatos a prefeito no Brasil entenderam bem esse jogo. E o retorno dos eleitores é imediato. Em Salvador, o favorito nas pesquisas é o atual vice-prefeito Bruno Reis (DEM), com mais de 60% de intenção de votos. Reis provavelmente será eleito no primeiro turno, com o apoio do atual prefeito Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM). O prefeito vive com aprovação no seu governo superior a 80% e por reiteradas vezes apresenta bons resultados financeiros. Embora jovem, Bruno Reis, 43 anos, passa aos eleitores a sua experiência e a capacidade de investimento de Salvador. “Para estimular a economia, adotamos uma série de medidas, com 101 ações, entre redução do valor de alguns tributos e isenção de multas e juros. Anunciamos investimentos de R$ 1 bilhão em obras públicas, para gerar cerca de 50 mil empregos na cidade”, disse o candidato. A concorrente mais próxima em Salvador é a Major Denice (PT), que aparece com apenas 13% e não parece ter fôlego para retirar votos do democrata.

Focar na economia e na questão da sobrevivência das pessoas não é uma novidade. O coordenador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica, Vladimir Maciel, lembra que Fernando Henrique Cardoso foi eleito em 1994 com a pauta de controle da inflação. Maciel diz que entre 2013 e 2018 o Brasil pautou a política por extremos, mas que agora é o problema da sobrevivência que fala mais alto. “Com a pandemia, as pessoas querem saber de problemas concretos: comer, pagar aluguel, pagar escola dos filhos, pagar plano de saúde, ter emprego, a disputa mortadela versus coxinha ficou pra trás”, explica.

SALVADOR Bruno Reis pode ganhar já no primeiro turno com mais de 60% (Crédito:Divulgação)

O sucesso do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), na busca pela reeleição, também se deve às questões práticas. “Covas lidera porque ele conseguiu manter a cidade com bons serviços públicos durante a pandemia”, disse Maciel. Apoiado pelo governador João Doria, Bruno Covas está com 33% nas pesquisas e assiste a uma disputa acirrada para saber quem vai enfrentá-lo no segundo turno. O ativista Guilherme Boulos já está em segundo lugar com 13% e espera contar com o apoio do petista Jilmar Tatto no 2º turno. O deputado Celso Russomano começou na frente, mas está em queda livre, hoje com apenas 12%. Por sua vez, Márcio França segue na corrida com 10%. Entre todos os postulantes, o candidato que fala mais sobre questões objetivas é Covas.

JUVENTUDE João Campos tem apenas 26 anos e é favorito no Recife (Crédito:Divulgação)

Ideias concretas

Construir a campanha com base em ideias muito vagas não é o melhor caminho para o prefeito. É assim que pensa o pesquisador e coordenador do curso de publicidade da Unisal, doutor Duílio Fabbri Júnior. O pesquisador diz que propostas de grandes projetos não funcionam para a grande maioria dos eleitores. “Eles querem saber como vai manter a sua casa e como recuperar o emprego. Mesmo as questões econômicas precisam ser traduzidas para o dia a dia”. Os cariocas também pensam assim. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM), está em primeiro lugar nas pesquisas com 33%. Paes confirma a tese de que candidatos à reeleição em cidades com muitos problemas econômicos não prosperam. Ele está na oposição e promete resolver o problema da cidade que chegou a atrasar quatro meses de salários de servidores e terminou 2019 com uma dívida de R$ 4 bilhões. O atual prefeito, Marcelo Crivella (Republicanos), sofre a repercussão de tantos problemas econômicos e só aparece com 15% de intenção de votos. Com 14% aparece a deputada Martha Rocha (PDT) e ela, inclusive, pode se beneficiar do voto útil e tomar a vaga de Crivella no 2º turno.

Apoiado pela hegemonia do PSB em Pernambuco — que tem Paulo Câmara como governador e Geraldo Júlio como prefeito do Recife —, o deputado João Campos, de apenas 26 anos, também aproveita a boa situação econômica da capital. Campos está com 33% das intenções de votos e parece ter consolidado sua ida ao segundo turno (na pesquisa Datafolha tem 29%). Em seguida, surge a deputada Marília Arraes (PT), com 21% (pelo Datafolha 22%). Marília é prima de Campos e tem a passagem para o 2º turno praticamente assegurada. Ainda sonhando com uma reviravolta, o ex-ministro Mendonça Filho (DEM), com 17% (18% no Datafolha) e a Delegada Patrícia (Podemos), com 12% (15% no Datafolha), esperam por resultados mais positivos neste domingo. Campos diz que já está preparado para enfrentar o fim do Auxílio Emergencial e que “defende a implantação do Crédito Popular, pois os pequenos negócios têm tudo para promover uma transformação social”, afirmou. Os concorrentes e suas campanhas continuam atentos às tendências impostas pelos eleitores. No início da pandemia da Covid-19, a saúde foi a principal área. No entanto, os desdobramentos da crise econômica mudaram o rumo das propostas.