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Duque, o homem de Uribe que lidera retorno da direita na Colômbia

Duque, o homem de Uribe que lidera retorno da direita na Colômbia

O candidato da direita, Iván Duque, após votar em 17 de junho de 2018, no segundo turno da eleição presidencial na Colômbia - AFP

Iván Duque será o presidente mais jovem e o mais votado na história moderna da Colômbia, levando ao poder as bandeiras direitistas do popular ex-presidente Álvaro Uribe contra o histórico pacto de paz com a ex-guerrilha Farc.

Afável e com alguns quilos a mais, este ex-senador de 41 anos se tornou, neste domingo (17), o novo presidente da quarta economia latino-americana, após derrotar com ampla vantagem de 12 pontos (53,95%) o ex-guerrilheiro Gustavo Petro (41,83%).

Advogado com mestrado em Economia e breve experiência política, Duque representa a Colômbia “indignada” com as “concessões” à agora ex-guerrilha Farc em troca de sua transformação em partido político, após meio século de guerra.

Por isso, promete “modificações estruturais” no acordo de paz de 2016 que desarmou 7.000 combatentes.

Queremos que “aqueles que cometeram crimes de lesa-humanidade tenham sanções proporcionais que sejam incompatíveis com a representação política”, disse ele à AFP.

O acordo firmado estipula que os ex-chefes da guerrilha cumpram penas alternativas à prisão, se confessarem seus crimes e indenizarem as vítimas de um conflito que também contou com a participação de paramilitares de extrema direita e de agentes do Estado.

Duque também é porta-voz dos colombianos que temem que o país siga o rumo da economia venezuelana, o que – garante ele – teria ocorrido se Petro vencesse a eleição. O novo presidente da Colômbia se refere a seu homólogo da Venezuela, Nicolás Maduro, como “ditador” e “genocida”.

Iván Duque encarna, principalmente, as ideias do agora senador Uribe, por ele chamado de “presidente eterno”, cujos mandatos continuam vivos oito anos após deixar a Presidência: linha-dura contra os rebeldes, investimento privado e valores tradicionais.

E essa força de Uribe, que se conserva apesar de dezenas de investigações contra ele, será seu maior desafio agora no poder. Dentro de seu partido, o Centro Democrático, afirmam que Duque “deve” tudo ao padrinho político, enquanto a oposição o aponta como um “fantoche” do ex-presidente.

“Ninguém sabe, porém, se tem opinião própria, ou se vai obedecer às ordens de outro”, diz Fabián Acuña, professor da Universidade Javeriana.

– Pouca experiência –

Sua experiência na política é de quatro anos, mas este natural de Bogotá “viveu a política e desde criança a leva no sangue”, afirma José Obdulio Gaviria, um dos ideólogos do uribismo.

Com seu pai, Iván Duque Escobar, um liberal de extensa carreira política, aprendeu os discursos políticos.

Mas foi com o então ministro Juan Manuel Santos, com quem se iniciou profissionalmente nos anos 1990, como assessor da Fazenda. Depois, saltou para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), onde ficou por quase 13 anos.

Hoje, Duque se opõe ferozmente a Santos.

“É muito dinâmico em suas relações públicas, muito hábil para administrar as relações”, disse à AFP uma fonte que trabalhou com ele no BID.

Nos Estados Unidos, conheceu Uribe, que o colocou em sua lista fechada ao Senado para o período 2014-18.

Seus antigos colegas no Congresso apontam sua inteligência, responsabilidade e disciplina. Em quatro anos, conseguiu se destacar e levou adiante quatro projetos de lei, o mais importante deles relacionado a empreendimentos e à “economia laranja”.

“Mas um presidente precisa ter experiência, autonomia, capacidade política própria, tudo que falta em Iván, que é, como todo o mundo reconhece, um bom rapaz”, avalia o senador oficialista Roy Barreras.

– Velha aspiração –

Sua imagem jovial e moderna contrasta com suas crenças conservadoras: é contra a adoção e o casamento gay, a eutanásia e a legalização, ou descriminalização da maconha.

Embora antes celebrasse os avanços das minorias, a adesão à sua campanha de setores de extrema direita e de evangélicos pode explicar seu endurecimento nesses temas. É uma incógnita o papel que representantes desses grupos terão em sua Presidência.

Casado há 15 anos com a advogada María Juliana Ruiz e pai de três filhos, quando garoto, sonhava em ser atacante do América de Cali. Tem uma memória quase fotográfica e, na faculdade, foi um “nerd”.

“Iván sempre dizia ‘cara, algum dia serei presidente da Colômbia’. Dizia isso com tamanha determinação que as pessoas acreditavam. Finalmente conseguiu”, lembra Francisco Barbosa, amigo próximo e companheiro de estudo.