Dória, cadê meu respirador?!

A morte de milhões não é tragédia, é estatística, mas a consciência publica da morte individual está mudando o sentido a frase que Stálin deixou para a eternidade. A contagem diária dos mortos de Covid na TV está transformando estatística em tragédia. Será esse o preço a pagar pela globalização?

. Se ninguém conhecer a história por detrás da tragédia, uma morte é só estatística. É por esse desligamento entre identidade e fato que facínoras como Stálin, Zedong, Pol-Pot, Leopoldo (rei dos Belgas) ou Hitler — só para falar de alguns— puderam liderar suas nações sendo respeitados — e até amados — pelo povo. Porque aos cidadãos comuns nada interessam estatísticas públicas, apenas as tragédias privadas nos fazem deitar lágrimas e soltar gemidos… a dor da gente não sai no jornal.

Era assim até que um dia mudou. Um cara sardento de seu nome Zuckerberg inventou o Facebook e nele, um jornal para cada um, uma televisão unipessoal, um canal de rádio, uma tela de cinema, e uma montra infinita de vaidades para cada um de nossos inestimáveis umbigos. Todo mundo ficou tão “só seu” que um dia as notícias fugiram do jornal para nunca mais voltar e a dor da gente ficou sem oratório de expiação.

Jogada no Whatsapp, à mão se semear, pronta para consumir, pronta para se transformar em arma de arremesso político. Coisa ruim disfarçada de milagre bom. A nossa liberdade sendo a nossa escravidão, sem ninguém dar conta.

Assim irrompeu na sociedade um vírus pandémico com alvo e nome de coroa. Uma doença nova que começou na China onde matou alguns milhares e logo se espalhou por todo o mundo, onde continua matando milhares porque não tem vacina nem remédio. Mata a saúde dos mais velhos e doentes, mas sobretudo mata de medo a sociedade, os políticos e a economia.

É a dor da gente no jornal! O medo deste vírus transformou a estatística — normalmente invisível — dos milhares de seres humanos que todos os dias morrem no anonimato, numa tragédia pública sem precedentes.

Quando as notícias enumeram os mortos em direto, a estatística vira tragédia e todos os políticos do mundo são obrigados a tomar a mesma decisão se quiserem continuar tendo emprego.

As mortes que acontecem na praça pública já não são estatísticas, são tragédias. E na tragédia há sempre um culpado consciente. Um Dória a quem cada morte assenta. Um Bolsonaro a quem toda a raiva aponta. Não pela culpa, mas pela falta de um respirador. Só mesmo o medo de morrer pode ser pior que a morte.


Sobre o autor

José Manuel Diogo é autor, colunista, empreendedor e key note speaker; especialista internacional em media intelligence,  gestão de informações, comunicação estratégica e lobby. Diretor do Global Media Group e membro do Observatório Político Português e da Câmara de Comércio e Indústria Luso Brasileira. Colunista regular na imprensa portuguesa há mais de 15 anos, mantém coluna no Jornal de Notícias e no Diário de Coimbra. É ainda autor do blog espumadosdias.com. Pai de dois filhos, vive sempre com um pé em cada lado do oceano Atlântico, entre São Paulo e Lisboa, Luanda, Londres e Amsterdã.


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