Dona Lulu

Dona Lucrécia é uma das funcionárias mais antigas do Palácio do Planalto.

Tem acesso a qualquer sala, qualquer reunião, a qualquer hora. Entra sem bater onde quiser.

– Há quanto tempo a senhora está aqui no Palácio, dona Lulu? – pergunta a jornalista.

– Xi fia…deixa eu ver… — conta nos dedos — …seis…sete. Acho que oito.

– Oito anos?!

– Não! Oito mandatos!

Testemunhou, em primeira pessoa, momentos históricos.

Estava na sala quando Zélia apresentou o projeto para tomar nosso dinheiro; quando batizaram a moeda de Real; na posse do Lula, da Dilma, do Temer e do Bolsonaro.

Participou de incontáveis reuniões com Odebrecht, Bush, Obama, chineses, russos e argentinos. Assistiu a ascensão e queda de centenas de ministros e, em silêncio, se tornou um dos nomes mais influentes de Brasília. Sempre fazendo o que faz melhor: servindo café.

Tanto que, quando assumem, os presidentes são apresentados a ela ainda nas primeiras horas no cargo.

– …e essa, presidente, é dona Lulu. Sabe mais que muito senador, né dona Lulu? — o chefe de gabinete a apresenta quando entra com o carrinho de café. Ela sorri e agradece.

– Seja bem vindo presidente. Eu votei e torço muito pelo senhor, viu? — diz a frase padrão.

Com seu jeitinho de tia avó, Dona Lulu consegue derrubar ministros e mudar políticas de comércio exterior. A nomeação da Regina Duarte, por exemplo, vocês acham que foi sugestão de quem? Claro.

Verdade que, na saída do Moro, foi voto vencido.

– Ah, presidente, eu adoro ele. Sempre tão educado. O senhor tem certeza, hein? — perguntou, enquanto servia a média com pão e manteiga da tarde.

– Tenho dona Lulu, esse aí é tão educado quanto folgado. — respondeu o presidente.

– Mais um biscoitinho, presidente? — dona Lulu viu que não era o caso de insistir.

Assim que as primeiras notícias da pandemia começaram a chegar da China, dona Lulu notou que o presidente estava planejando medidas drásticas de isolamento social para serem implementadas em todo o país.

Chegou a ouvi-lo falar em lockdown ainda em fevereiro, imagine! Achou aquilo uma loucura de tão precipitado. Coisa de presidente de primeira viagem. Então, aos poucos, café por café, foi mostrando ao presidente que aquilo era só uma gripinha e que o país não podia parar. Em uma semana, o presidente estava convencido. E dona Lulu, orgulhosa de, mais uma vez, ter ajudado a Nação.

Os casos começaram a crescer exponencialmente, como esperado. O presidente, fiel aos conselhos de dona Lulu, passou a tomar atitudes polêmicas e a mídia não perdoou.

– Não liga pra mídia, presidente. O seu lugar é nos braços do povo. Mais requeijão?

– Mas eles tão dizendo que a culpa é minha, dona Lulu!

– E daí, meu filho? Você é Messias, mas não faz milagres, né?

Quando os casos passaram de 100 mil, o presidente estava desesperado. Precisava encontrar uma saída para preservar sua imagem. Mandou chamar dona Lulu. Enquanto ela servia o café, o presidente confessou:

– A coisa tá feia, dona Lulu. Tá fora de controle. Falta tudo… Testes, UTI, respiradores…

Dona Lulu sentiu que a demissão do Mandetta, que ela praticamente havia implorado ao presidente, não tinha sido suficiente para conter a doença.

– O que que eu faço agora, dona Lulu? — o presidente perguntou mergulhando o biscoito no café para ficar molinho.
Dona Lulu pensou um pouco e, em sua infinita sabedoria, sugeriu:

– Foca no Trump, presidente. Álcool gel.

– O que que tem o álcool gel, dona Lulu?

– Fala pro povo tomar álcool gel, ué? Não mata o vírus? Então. Vai mais um biscoitinho?

Mas Bolsonaro já não estava mais pensando no café.

Olhava para dona Lulu pensando na sorte que tinha de te-la ao seu lado.

Gritou para a secretária:

– Dona Miriam, chama o Teich!

Nos bastidores, a voz da experiência que pauta e orienta o governo. Será sorte ou azar de Bolsonaro?


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