Por Luana Maria Benedito

SÃO PAULO (Reuters) – O dólar teve queda acentuada frente ao real pelo segundo pregão consecutivo nesta terça-feira, mas mostrou forte instabilidade no final das negociações e fechou acima dos menores patamares do dia, depois que o presidente Jair Bolsonaro (PL) não reconheceu a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições, mas garantiu que cumprirá os mandamentos da Constituição.

A moeda norte-americana à vista fechou em queda de 0,91%, a 5,1182 reais, depois de mais cedo ter chegado a cair 1,57%, a 5,0833 reais na venda.

Mesmo distante das mínimas, o dólar ainda registrou a menor cotação para encerramento desde 12 de setembro (5,0983), depois de na véspera já ter despencado 2,59%, a 5,1652 reais na venda.

No acumulado dos últimos dois pregões, o dólar perde 3,47%, e a moeda está agora abaixo de suas médias móveis lineares de 50, 100 e 200 dias pela primeira vez em cerca de seis semanas.

Na B3, às 17:37 (de Brasília), o contrato de dólar futuro de primeiro vencimento caía 1,02%, a 5,1600 reais.

A moeda norte-americana mostrou muita volatilidade nos últimos minutos do pregão, durante o pronunciamento de Bolsonaro. De um lado, o presidente elevou as tensões políticas ao não reconhecer explicitamente a vitória de Lula e ao renovar ataques infundados ao processo eleitoral.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro disse que respeitará a Constituição e não deu indícios de que desafiará formalmente o resultado das eleições, enquanto o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, afirmou ter sido autorizado pelo mandatário a começar o processo de transição de governo com a equipe petista.

No geral, a percepção dos mercados é de que as instituições brasileiras são fortes e garantirão que a troca de governos seja realizada sem grandes turbulências, embora uma aceitação clara de Bolsonaro ainda seja vista como necessária para alguns.

“Na questão da transição seria importante ele (Bolsonaro) reconhecer a derrota e sinalizar que vai estar disposto a colaborar para um processo de transição tranquilo”, disse à Reuters Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.

O especialista também disse que parte do movimento do dólar nesta terça-feira refletiu esperanças de que um pronunciamento de Bolsonaro pudesse ajudar a conter os bloqueios e interdições de estradas por parte de apoiadores do presidente, que se espalharam nesta terça-feira para várias partes do país apesar de decisão do Supremo Tribunal Federal determinando o desbloqueio imediato das vias.

Em seu discurso no Palácio da Alvorada nesta tarde, Bolsonaro disse que as manifestações devem respeitar o direito de ir e vir.

Ainda em relação à cena política doméstica, Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, disse que colaborou para a queda do dólar nesta sessão a nomeação de Geraldo Alckmin (PSB), vice de Lula, para ser o coordenador da equipe de transição do presidente eleito.

Alckmin, que por anos foi filiado ao PSDB, é visto pelos mercados como um rosto moderado e que pode evitar a condução de uma agenda muito radical durante o mandato de Lula.

Enquanto isso, na cena externa, especulações de que a China estaria planejando uma reabertura das rígidas restrições contra a Covid-19 derrubaram o dólar contra algumas divisas emergentes nesta terça-feira, movimento que respaldou a valorização do real por aqui, disse Rostagno, do Mizuho.

Os mercados financeiros brasileiros permanecerão fechados na quarta-feira, devido ao feriado do Dia de Finados.

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