Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Uma deterioração aguda do ambiente externo ao longo da tarde, com as bolsas em Nova York apresentando perdas pesadas, respingou no mercado doméstico de câmbio e levou o dólar a encerrar a sessão desta terça-feira, 28, em alta firme, na casa de R$ 5,26, no maior valor de fechamento desde 4 de fevereiro. O aumento da percepção de risco fiscal com a expectativa pelo desenho final dos benefícios sociais acoplados ao parecer da PEC dos Combustíveis (com divulgação prevista para depois do fechamento dos mercados, a partir das 18 horas) e o início de ajuste de posições para disputa da última Ptax de junho contribuíram para a perda de fôlego do real.

O azedume no mercado se deu em meio a temores de desaceleração mais forte da economia norte-americana, após resultado abaixo do esperado da confiança do consumidor dos EUA em junho e falas duras de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ao longo da tarde. Segundo analistas, a tese de que o BC americano poderia ser mais cauteloso no ajuste da política monetária, que sustentou recuperação dos ativos de risco lá fora na semana passada, parece fazer água. Um quadro de estagflação, com perda de força da atividade combinada com inflação ainda elevada, volta à mesa.

Pela manhã, o real até conseguiu se descolar da tendência global de fortalecimento do dólar, graças ao avanço das commodities em razão da reabertura da economia chinesa, dada a redução de casos de covid-19. O minério de ferro subiu 3,80% em Qingdao, na China, escorado na melhora de dados do setor imobiliário chinês e na retomada de atividades de siderúrgicas.

Na mínima, nas primeiras horas de negócios, o dólar chegou a furar o piso de R$ 5,20 e descer até 5,1891 (-0,87%). No início da tarde, a moeda virou para o lado positivo e, com sucessivas máximas nas últimas horas do pregão, chegou a esboçar romper R$ 5,27, tocando pontualmente 5,2790. No fim do dia, o dólar à vista avançava 0,60%, cotado a R$ 5,2660 – maior patamar desde 4 de fevereiro (R$ 5,3220). Em junho, a moeda já acumula alta de 10,80%.

“Houve uma virada de chave no mercado externo à tarde que culminou em piora dos ativos domésticos e alta do dólar aqui”, afirma o especialista da Valor Investimentos Gabriel Meira, acrescentando que a proximidade da formação da Ptax final de junho e da rolagem dos contratos futuros de dólar, na quinta-feira (30), contribuem para pressionar a taxa de câmbio.

O mercado lá fora começou a virar no fim da manhã com a informação de que o índice de confiança do consumidor nos EUA recuou de 103,2 em maio para 98,7 em junho, abaixo da previsão de analistas (100) e no menor nível desde fevereiro de 2021. A piora mais aguda veio na esteira de falas de dirigentes do BC americano.

O presidente do Fed de St. Louis, James Bullard, tido como o principal “falcão” da autoridade monetária, disse que as altas de juros previstas nas projeções do Fed são “um passo deliberado” para ajudar a autoridade a “mover a política mais rapidamente” de modo a levar a inflação à meta de 2%. A presidente do Federal Reserve de São Francisco, Mary Daly, disse à tarde que projeta crescimento menor da economia dos Estados Unidos, mas que não vê uma recessão. Daly afirmou que o Fed pode lidar “ao menos parcialmente” com a inflação, contendo a demanda, que seria “cerca de metade da causa” da escalada dos preços.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, observa que, embora a economia americana ainda apresente crescimento “considerado robusto”, sondagens regionais do Fed apontam para desaquecimento. Em relação ao resultado da confiança do consumidor nos EUA, Velho chama a atenção para o fato de o subíndice de expectativas ter decido ao menor nível em dez anos.

Do lado doméstico, Velho afirma que, com arrecadação e crescimento superando as expectativas, o Congresso tende a “pesar mais no gasto”. Dados do Caged divulgados pela manhã surpreenderam ao mostrar abertura líquida de 277.018 vagas de trabalho com carteira assinadas em maio, acima da mediana de Projeções Broadcast, de 181.250 vagas.

“O pacotão fiscal de benesses e vales deverá superar R$ 40 bilhões, mas ainda manterá um déficit relativamente reduzido em 2022”, afirma Velho, ressaltando que esse conjunto de fatores externos e internos leva a expectativa de dólar em níveis mais elevados.

Fontes ouvidas pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) afirmam que, além da mudança do vale-gás de bimestral para mensal e do voucher aos caminhoneiros, a ala política do governo quer incluir na PEC dos Combustíveis a proposta de zerar a fila do Auxílio Brasil, cujo valor subiria dos atuais R$ 400 para R$ 600. Em cerimônia de entrega de conjuntos residenciais em Maceió (AL), o presidente Jair Bolsonaro disse que com “o aumento do Auxílio Brasil, mulheres em certas condições vão ganhar R$ 1.200 por mês”.

Em relatório, o banco Wells Fargo afirma que, embora seja uma das moedas com melhor desempenho neste ano, o real pode apagar ganhos e se enfraquecer até o fim de 2023. O banco trabalha com um aumento de R$ 0,10 na cotação a cada trimestre: R$ 5,30 (3tri2022), R$ 5,40 (4tri2022), R$ 5,50(1tri2023), R$ 5,60 (2tri2023), R$ 5,70 (3tri2023) e R$ 5,80 (4tri2023).

“Esperamos que o risco político aumente antes da eleição presidencial deste ano, já que o presidente Jair Bolsonaro provavelmente ampliará e aumentará os gastos sociais com programas em um esforço para angariar apoio eleitoral”, afirma o Wells Fargo. “Mais gastos fiscais e uma maior carga de dívida devem prejudicar o sentimento em relação ao Brasil, enquanto cortes nas taxas de juros ao longo de 2023 devem contribuir para uma moeda mais fraca”.