Dólar fecha a R$ 5,15 com fluxo e busca por divisas emergentes

O dólar emendou o quarto pregão consecutivo de queda nesta terça-feira, 24, e flertou com o fechamento abaixo da linha de R$ 5,15, algo não visto desde 21 de maio de 2024. A apreciação do real veio em meio a uma nova onda de valorização de divisas emergentes e o provável fluxo de capital estrangeiro para a bolsa doméstica, em dia de alta superior a 1% do Ibovespa, que superou os 191 mil pontos pela primeira vez.

Pela manhã, a divisa até abriu em alta e tocou máxima a R$ 5,1845, em aparente ajuste e realização de lucros, diante do avanço da moeda americana em relação ao euro e ao iene. A maré virou ainda no começo da tarde com a melhora do apetite ao risco no exterior. Ruídos políticos e fiscais domésticos, como as negociações em torno do fim da escala 6×1 e a volta do debate sobre a gratuidade no transporte público, ficaram em segundo plano.

Com mínima de R$ 5,1429, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 0,26%, a R$ 5,1554, passando a acumular desvalorização de 1,63% nas últimas quatro sessões. Em fevereiro, as perdas são de 1,76%, após queda de 4,40% em janeiro. No ano, a moeda americana recua 6,08% em relação ao real, que tem o melhor desempenho entre as divisas latino-americanas no período.

O economista-chefe da corretora Monte Bravo, Luciano Costa, atribui a apreciação do real à continuidade do fluxo global de recursos para mercados emergentes, em meio a um movimento de rotação de carteiras marcado pela diminuição relativa da exposição de investidores a ativos denominados em dólar.

Costa cita os números de entrada de capital externo no país no início do ano, revelados hoje na divulgação do resultado das transações correntes em janeiro pelo Banco Central. No período, houve entrada líquida de US$ 3,752 bilhões para ações e de US$ 6,939 bilhões para títulos da dívida. O ingresso líquido em investimento em carteira, que inclui também fundos de investimento, foi de US$ 8,867 bilhões, o maior para qualquer mês desde julho de 2018.

“Tudo indica que esse movimento de entrada de estrangeiro continua forte em fevereiro. Temos a perspectiva de um ciclo de corte de juros que favorece a bolsa. Ao mesmo tempo, o diferencial entre juros interno e externo vai continuar elevado, o que é bom para o carry trade”, afirma Costa.

O economista da Monte Bravo ressalta que as taxas dos Treasuries estão em queda diante da percepção de menor pressão inflacionária, com uma tarifa comercial americana efetiva menor do que a estimada anteriormente em razão da derrubada do tarifaço de Trump pela Suprema Corte.

“O efeito das tarifas nos preços vai se diluir nos próximos meses, com a inflação acumulada nos EUA em 12 meses voltando gradualmente para 2% ou 2,20% no fim do ano. Há expectativa de que o Federal Reserve possa retomar o corte de juros no fim do segundo trimestre ou no início do terceiro”, diz Costa.

Pela manhã, a Casa Branca confirmou a imposição de uma tarifa global de 10% sobre importações a partir desta terça e com validade de 150 dias, abaixo dos 15% indicados por Donald Trump no fim de semana. Segundo o governo americano, a taxação busca enfrentar “problemas fundamentais no balanço de pagamentos”, depois de a Suprema Corte decidir pela ilegalidade das chamadas tarifas recíprocas de Trump anunciadas em 2 de abril do ano passado.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY operou em leve alta ao longo do dia e avançava cerca de 0,15%, ao redor dos 97,800 pontos no fim da tarde, após máxima aos 97,986 pontos. Destaque para o tombo de mais de 0,70% do iene após relatos de que a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, manifestou reservas sobre novos aumentos da taxa de juros durante reunião na semana passada com o presidente do Banco do Japão (BoJ), Kazuo Ueda.

Para o economista-chefe para a América Latina da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, o rali recente do real parece mais “cíclico do que estrutural” e pode ser revertido em caso de aumento das taxas dos Treasuries ou de renovadas preocupações fiscais domésticas, em meio a aumento dos ruídos políticos. “Enquanto a moeda americana permanecer fraca e o capital global continuar se movendo em direção aos mercados emergentes de taxas de juros elevadas, o real pode se manter firme”, diz Abadia.