O dólar emendou o quinto pregão consecutivo de queda nesta quarta-feira, 25, e fechou abaixo do nível de R$ 5,15 pela primeira vez desde 21 de maio de 2024, em mais um dia marcado pela desvalorização global da moeda americana. Embora o real não tenha apresentado o melhor desempenho entre divisas emergentes e de países exportadores de commodities, operadores afirmam que o ganho de musculatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial reforça a tendência de queda da taxa de câmbio.
Pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada pela manhã mostra que o candidato da oposição cresceu e está empatado tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em simulação de segundo turno. Flávio Bolsonaro tem 46,3% das intenções de voto, enquanto o petista soma 46,2%. O levantamento também indica piora na avaliação do presidente, com leve alta na desaprovação e queda mais acentuada na aprovação.
Afora uma alta pontual no início da tarde, em aparente movimento de realização de lucros, o dólar operou em baixa no restante do pregão, embora não tenha se aproximado da mínima de R$ 5,1191, vista logo após a abertura. No fim das negociações, o dólar à vista recuava 0,59%, a R$ 5,1252 – menor valor de fechamento desde 21 de maio de 2024 (R$ 5,1168). Após queda de 4,40% em janeiro, a moeda americana recua 2,33% em fevereiro. No ano, as perdas são de 6,63%.
O gestor de fundos multimercados Marcelo Bacelar, da Azimut Brasil Wealth Management, observa que o ambiente externo continua favorável ao real, com depreciação global do dólar e aumento do fluxo de recurso para ativos emergentes.
No caso do Brasil, ele destaca que a derrubada das chamadas tarifas recíprocas pela Suprema Corte dos EUA, seguida pela adoção de taxa global de 10% por Donald Trump, representa um alívio tarifário para o setor manufatureiro exportador brasileiro. Outro ponto positivo para o real, embora não tenha influência direta na formação da taxa de câmbio neste momento, são os sinais de diminuição do déficit em transações correntes.
“A melhora de Flávio nas pesquisas era de certa forma esperada. Mas a pesquisa de hoje trouxe também uma informação importante, que foi o aumento da desaprovação de Lula. É uma surpresa positiva para o prêmio de risco do país”, afirma Bacelar, lembrando que investidores veem a vitória da oposição como passo relevante para a mudança da política fiscal.
Para o gestor da Azimut, o chamado ‘trade eleitoral’ pode ganhar peso na dinâmica dos ativos domésticos, sobretudo se as próximas pesquisas confirmarem a percepção de chances reais de vitória da oposição na corrida presidencial.
“Eu acho que os fatores idiossincráticos vão ficar mais visíveis. Podemos emendar o trade de emergentes com um trade eleitoral positivo, com a chance de saída desse governo e mudança da política econômica”, afirma Bacelar, ressaltando que o real ainda é apoiado pela sazonalidade positiva do fluxo e por uma taxa de juros muito elevada.
À tarde, o Banco Central informou que o fluxo cambial em fevereiro, até o dia 20, está positivo em US$ 3,358 bilhões, com entrada líquida de US$ 1,914 bilhão pelo canal financeiro, que reúne os investimentos em carteira. No ano, o fluxo total soma US$ 8,426 bilhões, graças, sobretudo, ao aporte líquido de US$ 8,136 bilhões pelo canal financeiro.
O economista Sergio Goldenstein, sócio-fundador da Eytse Estratégia, chama a atenção para o ingresso financeiro de US$ 2,34 bilhões no último dia 19, possivelmente refletindo a internalização, pelo Tesouro Nacional, de 50% da emissão externa de US$ 4,5 bilhões realizada neste mês.
O economista André Perfeito, da Garantia Capital, vê espaço para continuidade da apreciação do real. Ele atribui o rali recente da moeda brasileira à depreciação global do dólar e ao fato de que o Brasil é “muito identificado” com commodities, o que “acaba gerando uma demanda maior pela divisa nacional”.
Perfeito acrescenta que, hoje, a dinâmica do mercado de câmbio ganhou um “tempero especial” com a pesquisa eleitoral mostrando fortalecimento de Flávio Bolsonaro, 0,1 ponto porcentual à frente de Lula em eventual segundo turno. “Isso quer dizer empate, mas sabemos bem o quanto essa notícia tem a capacidade de racionalizar o movimento recente do dólar na cabeça de muitos investidores”, afirma o economista.