Após duas sessões consecutivas de baixa, com desvalorização acumulada de 2,19%, o dólar à vista encerrou esta quarta-feira, 18, em alta de 0,90%, a R$ 5,2468, na máxima do dia. A moeda americana ganhou força lá fora após declarações cautelosas do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, esfriarem as apostas em torno da retomada de cortes de juros nos EUA.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY ultrapassou a marca dos 100,000 pontos durante a fala de Powell e registrou máxima aos 100,222, nível perto do qual girava no fim do dia. Apesar do repique, o Dollar Index ainda acumula leve desvalorização na semana, cerca de 0,30%. Os preços do petróleo voltaram a subir, com o Brent para maio perto dos US$ 110,00 o barril, em meio à continuidade do conflito on Oriente Médio.
À exceção do peso colombiano, o real mostrou perdas inferiores a de seus principais pares, considerando o grupo das divisas latino-americanas e o rand sul-africano. Analistas ponderam que a perspectiva de melhoria dos termos de troca com a escalada do petróleo e a taxa de juros real elevada mitigam os efeitos da aversão global ao risco sobre a moeda brasileira.
A expectativa majoritária é que o Comitê de Política Monetária (Copom) anuncie uma redução da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,75% ao ano. Uma ala minoritária aposta em manutenção dos juros. Seja qual for o veredicto do comitê, tanto a taxa local quanto o diferencial entre juros interno e externo permanecerão elevados, desencorajando a manutenção de posições em moeda americana.
“Vemos um aumento da entrada de recursos por parte de exportadores para aproveitar a alta recente do dólar. A mudança de patamar do preço do petróleo pode favorecer a balança comercial. Além disso, podemos ver uma volta do carry quando a aversão ao risco lá fora diminuir, porque nossos juros ainda são muito altos”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo.
Como esperado, o Fed manteve a taxa básica de juros dos EUA na faixa entre 3,50% e 3,75%. O diretor Stephen Miran, indicado ao posto pelo presidente Donald Trump, foi voz solitária a favor de um afrouxamento monetário, ao votar por redução de 25 pontos-base. Tido como outra figura “dovish” entre dirigentes do Fed, o diretor Christopher Waller desta vez optou por manutenção. O tom do comunicado foi considerado levemente duro, ao mencionar crescimento sólido, inflação um pouco elevada e incertezas provocadas pela guerra no Oriente Médio.
A mediana das projeções dos integrantes do Fed, refletidas no gráfico de pontos, ainda é de corte de juros neste ano nos EUA, apesar do aumento das expectativas de inflação. Em entrevista coletiva, Powell disse que sem progresso no processo de desinflação, não haverá redução da taxa básica e pontuou que parte dos membros do Fed já está menos inclinada a um afrouxamento monetário. O chairman foi além e revelou que surgiu nos debates a possibilidade de que o próximo passo do BC seja uma elevação dos juros.
“A mensagem de Powell foi um pouco mais dura. Ele condicionou a condução da política monetária principalmente ao progresso na inflação, ao mesmo tempo em que mostrou mais tranquilidade em relação ao mercado de trabalho”, afirma a economista Isadora Junqueira, da AZ Quest, que ressalta o aumento simultâneo nas projeções de inflação e crescimento, o que surpreende, dado que a guerra “tem de alguma forma” um efeito de baixa sobre a atividade.
Ferramenta de monitoramento do CME Group mostra que os investidores passaram a ver como mais provável uma redução dos juros nos EUA apenas em dezembro. Contudo, as chances de manutenção dos juros neste ano avançaram, passando da faixa de 35% para 42%. As expectativas se voltam agora para a troca no comando do Fed, com substituição de Powell, cujo mandato expira em maio, por Kevin Warsh, indicado por Donald Trump, que defendeu nesta semana uma redução da taxa de juros.
“Diante do impacto dos preços do petróleo sobre a inflação e da manutenção de um ambiente de crescimento moderado para a economia americana, o Fed não deverá mais reduzir os juros ao longo desse ano”, afirma o economista Marcelo Fonseca, economista do Grupo CVPAR.