Vítima de um atentado, Mohamed al-Abdallah vive com fragmentos de metal em seu corpo. Desde então, o jovem de 17 anos conta com a ajuda transfronteiriça que a ONU fornece ao noroeste da Síria.
Como milhões de sírios, corre o risco de, em breve, ser privado desta ajuda: a Rússia quer enterrar definitivamente este mecanismo de ajuda humanitária em vigor desde 2014 e que expira em 10 de julho.
Mais de 80% da população do noroeste da Síria depende desse dispositivo para sobreviver, de acordo com a ONU.
Ele permite a transferência – sem o apoio de Damasco – de remédios, alimentos, cobertores, colchões e até vacinas anticovid para territórios mergulhados na pobreza, que fogem ao controle do regime e são controlados, sobretudo, por rebeldes e extremistas islâmicos.
“Todos os meus remédios vêm de fora”, explica Abdallah, que mora em um acampamento para deslocados, no meio dos olivais de Azaz, no norte da província de Aleppo.
Em 2014, a explosão de um carro-bomba matou o pai desse adolescente e lesionou sua coluna.
“Se mover um milímetro ficarei paraplégico, é o que os médicos me disseram”, lamenta o adolescente, que divide uma tenda com a mãe, a irmã viúva e dois sobrinhos.
Contra a dor dispõe apenas do tratamento prestado pelas ONGs.
O dispositivo transfronteiriço, salvo no último minuto no ano passado, já foi drasticamente reduzido a um único ponto de acesso, o de Bab al-Hawa (noroeste), que permite o envio de ajuda da ONU e de seus parceiros através da Turquia.
A ONU e o Ocidente solicitam a prorrogação por mais um ano. Uma votação crucial ocorrerá no Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual Moscou frequentemente recorre ao poder de veto.
“Se o posto de fronteira fechar (…) não poderei mais me mover”, prevê Abdallah. “Minhas pernas não vão se sustentar, a dor é insuportável”, acrescenta.
– “Catástrofe humanitária” –
No noroeste da Síria, cerca de três milhões de pessoas vivem na província de Idlib, o último grande reduto extremista e rebelde do país. Existem também vários bolsões controlados por facções pró-turcas.
Se o mecanismo não for renovado, a região “mergulhará em uma catástrofe humanitária”, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS), acrescentando que esse corredor também é “vital para o enfrentamento do coronavírus”.
No ano passado, cerca de 1.000 caminhões cruzavam por mês a fronteira para transportar ajuda humanitária para cerca de 2,4 milhões de pessoas, informou a agência da ONU à AFP.
A OMS fornece, principalmente, kits de hemodiálise e anestesia, medicamentos para diabetes, tuberculose e leishmaniose, uma doença parasitária de pele muito comum na Síria, além de equipamentos para hospitais e de terapia intensiva.
Irlanda e Noruega, dois membros não permanentes do Conselho de Segurança, apresentaram um projeto – cuja cópia foi consultada pela AFP – pedindo a manutenção de Bab al-Hawa por um ano e a reabertura do corredor de Al-Yarubiyah. Este permitia, antes de ser fechado em 2020, enviar ajuda do vizinho Iraque para os territórios curdos do nordeste.
Aliado incondicional do governo Bashar al-Assad, Moscou insiste no fim desse dispositivo e no restabelecimento da soberania plena da Síria. Assim, a ajuda internacional passaria por Damasco.
Em nota, a ONG Anistia Internacional considerou “absurdo” supor que o regime será capaz de suprir a retirada da ajuda da ONU, lembrando que “as autoridades são conhecidas por bloquear sistematicamente qualquer acesso humanitário”.
Outro deslocado, Ahmed Hamra, também teme a retirada da ajuda humanitária. Com ambas as pernas amputadas na altura dos joelhos, foi vítima de um ataque aéreo em que morreu o irmão. Desde então, tem recebido injeções diárias de analgésicos.
“Trata-se de ajuda prestada por clínicas”, diz o deslocado de 37 anos. “Não tenho como comprar nada na farmácia”, desabafa.