Doença que afetou Billy Joel pode ser confundida com Alzheimer; entenda

Hidrocefalia de pressão normal provoca dificuldades para caminhar, alterações cognitivas e problemas urinários, mas pode ter seus sintomas revertidos com tratamento adequado

Billy Joel e exame cerebral. O cantor relatou melhora após tratamento da hidrocefalia de pressão normal, condição que pode ser confundida com outras causas de demência.
Foto: Billy Joel e exame cerebral. O cantor relatou melhora após tratamento da hidrocefalia de pressão normal, condição que pode ser confundida com outras causas de demência.

Uma condição neurológica que pode ser confundida com o Alzheimer e até com sinais naturais do envelhecimento ganhou atenção após o cantor americano Billy Joel, de 77 anos, relatar ter passado por uma cirurgia cerebral. O músico, conhecido pelo sucesso Piano Man, foi diagnosticado com hidrocefalia de pressão normal (HPN), doença que pode provocar alterações na memória, no equilíbrio e na capacidade de caminhar.

Diferentemente de muitas doenças neurodegenerativas, a HPN pode apresentar melhora significativa após tratamento cirúrgico. Em alguns casos, os sintomas podem desaparecer, especialmente quando o diagnóstico é realizado precocemente.

O problema é que suas manifestações costumam surgir lentamente e nem sempre são reconhecidas como sinais de uma condição neurológica tratável.

O que é a hidrocefalia de pressão normal?

A hidrocefalia de pressão normal ocorre quando há um acúmulo anormal de líquido cefalorraquidiano, também chamado de líquor, nos ventrículos cerebrais.

Esse líquido desempenha funções essenciais, como proteger o cérebro e a medula espinhal. Entretanto, quando se acumula de maneira inadequada, pode provocar a dilatação dos ventrículos e comprometer o funcionamento de estruturas cerebrais.

A condição é mais frequente em pessoas com mais de 60 anos e pode atingir aproximadamente uma em cada 100 pessoas nessa faixa etária, conforme a estimativa apresentada no levantamento.

Segundo o neurologista Iron Dangoni Filho, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, a evolução geralmente é gradual, o que dificulta a identificação dos primeiros sintomas.

Três sintomas merecem atenção

A hidrocefalia de pressão normal apresenta três manifestações consideradas características:

  • Alterações na marcha: dificuldade para caminhar, passos curtos, lentidão e sensação de que os pés estão presos ao chão.

  • Problemas urinários: urgência frequente para urinar e, em alguns casos, incontinência.

  • Alterações cognitivas: raciocínio mais lento, dificuldades de atenção, memória e organização de atividades cotidianas.

Nem todos os pacientes desenvolvem os três sintomas ao mesmo tempo.

Essa característica pode atrasar a investigação médica. Pessoas com dificuldade para andar, por exemplo, podem procurar inicialmente um ortopedista. Já aquelas com alterações urinárias podem buscar atendimento urológico, sem que a origem neurológica seja identificada.

Familiares também podem interpretar a lentidão e os esquecimentos como consequências inevitáveis da idade.

O especialista alerta que o tempo é determinante para a recuperação, pois a persistência da doença pode provocar danos neurológicos que não são totalmente reversíveis.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação começa com uma avaliação clínica, na qual o neurologista analisa os sintomas, o histórico de saúde e as alterações de mobilidade do paciente.

Exames de imagem, especialmente a ressonância magnética do cérebro, ajudam a identificar a dilatação dos ventrículos e outros achados compatíveis com a hidrocefalia.

Entretanto, a imagem isoladamente não é suficiente para determinar se o paciente se beneficiará de uma cirurgia.

Uma das ferramentas utilizadas nessa avaliação é o chamado Tap test, exame que consiste na retirada de uma quantidade de líquor por meio de punção lombar.

Após o procedimento, a equipe médica observa se houve melhora na capacidade de caminhar e em outras funções afetadas pela doença.

A avaliação pode ser repetida nas horas seguintes para identificar mudanças que indiquem maior possibilidade de resposta ao tratamento definitivo.

Cirurgia pode reverter sintomas, mas não beneficia todos os pacientes

O principal tratamento cirúrgico consiste na implantação de um sistema de derivação, geralmente com uma válvula que conduz o excesso de líquor dos ventrículos cerebrais até a cavidade abdominal, onde o líquido é absorvido pelo organismo.

A intervenção busca reduzir o acúmulo de líquor e aliviar os efeitos da doença sobre o funcionamento cerebral.

Segundo Iron Dangoni Filho, estudos e diretrizes internacionais apontam melhora clínica em aproximadamente seis a oito de cada dez pacientes selecionados para a cirurgia.

Isso não significa, porém, que todos terão recuperação completa.

A resposta depende de fatores como o tempo de evolução dos sintomas, as condições gerais de saúde e a existência de outras doenças neurológicas.

O procedimento também apresenta riscos, como infecções, sangramentos, obstrução ou funcionamento inadequado da válvula. Por isso, a decisão deve ser individualizada.

Tecnologia ajuda a avaliar a resposta ao tratamento

Em centros especializados, o Tap test pode ser acompanhado por equipamentos que medem objetivamente as alterações na marcha.

No Einstein Hospital Israelita em Goiânia, a avaliação utiliza sensores de movimento capazes de registrar características como velocidade, equilíbrio e padrão dos passos.

A tecnologia auxilia os profissionais a identificar mudanças discretas que poderiam passar despercebidas em uma observação convencional.

O objetivo é oferecer informações adicionais para decidir se o paciente apresenta condições favoráveis para a cirurgia.

A disponibilidade desse tipo de avaliação ainda varia entre instituições de saúde, e o acesso pode depender da estrutura e dos protocolos de cada serviço.

Caso de Billy Joel chama atenção para diagnóstico precoce

Billy Joel relatou ter apresentado melhora da memória e do equilíbrio após o procedimento realizado para tratar a hidrocefalia de pressão normal.

O caso contribuiu para ampliar a discussão sobre doenças que podem provocar sintomas semelhantes aos de demências degenerativas, mas que exigem abordagens terapêuticas diferentes.

Especialistas ressaltam que dificuldades progressivas para caminhar, associadas a alterações urinárias e cognitivas, devem motivar uma avaliação neurológica.

Embora esses sintomas possam ter diversas causas, reconhecer a possibilidade de hidrocefalia de pressão normal é importante para evitar atrasos no diagnóstico.

A identificação precoce pode aumentar as chances de melhora e permitir que pacientes recuperem parte significativa de sua autonomia e qualidade de vida.

Da IstoÉ e Agência Einstein