Cultura

Documentos de guerra

Como nunca se viu antes, séries da Netflix reúnem imagens inéditas e filmes raros restaurados em cores para contar a história das grandes batalhas do século 20

Crédito: Divulgação

REALIDADE Cenas raras do conflito mundial: documentos e imagens inéditas (Crédito: Divulgação)

NO FRONT Soldados em ação: cinegrafistas arriscaram a vida para fazer registros históricos (Crédito:Divulgação)

Em 1934, trinta mil alemães se reuniram para um congresso do partido nazista na cidade de Nuremberg, na Alemanha. Escolhida pessoalmente pelo Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, a jovem cineasta Leni Riefenstahl organizou uma equipe de dezenas de cinegrafistas para filmar a imponente parada militar e os discursos de Hitler, Göring e outros líderes do nazismo. As cenas épicas e assustadoras se transformaram em “Triunfo da Vontade”, um marco na adoção do cinema como estratégia bélica. Pela primeira vez, câmeras documentavam o embrião do que viria a ser o episódio mais dramático da história da humanidade: a Segunda Guerra Mundial.

Novas séries disponíveis na Netlifx ampliam em muito o conhecimento real sobre o conflito. Em vez de livros e imagens estáticas, filmes raros restaurados em cores contam as histórias da Segunda Guerra como nunca se viu. Em edições didáticas comentadas por especialistas de diversos países, esses documentários são ainda mais valiosos por ressaltar uma análise imparcial do conflito, missão ambiciosa em um evento marcado pela batalha de narrativas que surgiram após o seu término. De um lado, a coalizão liderada por EUA/Inglaterra; do outro, a União Soviética. Essa divisão de comando entre as potências ocidentais e a Rússia, que foi se acentuando na medida em que o conflito evoluía, não é novidade. Assistir a essa dinâmica em cenas reais, sim. É evidente, por exemplo, o incômodo físico na relação entre o britânico Winston Churchill, o americano Franklin D. Roosevelt e Joseph Stalin, nascido na república soviética da Geórgia. O que essas imagens esclarecem hoje é que a guerra de narrativas entre as potências é inútil: a máquina nazista só foi vencida graças à união dos aliados e aos ataques simultâneos pelos dois flancos, ocidental e oriental. Se os americanos não tivessem entrado no conflito para ajudar os ingleses, e sem o enorme sacrifício da população das repúblicas soviéticas, a Alemanha dificilmente seria derrotada.

PARCERIA Cinegrafistas e soldados: união pela sobrevivência (Crédito:Divulgação)
URSS Exército Vermelho: soldados preparados para o inverno (Crédito:Divulgação)

Imagens inéditas

A lista de documentários sobre o tema disponíveis na Netflix é extensa. Um filme que merece destaque entre eles é “Hitler – Uma Carreira”, dirigido pelos historiadores alemães Christian Herrendoerfer e Joachim Fest. Traz imagens inéditas de arquivos particulares e secretos que mostram a ascensão do líder nazista não apenas do ponto de vista militar, mas também pessoal. Da revolta com a Academia de Artes de Viena que o rejeitou como aluno até os primeiros discursos para as multidões é impressionante acompanhar em imagens reais a transformação de um homem em um monstro. Uma coisa é ler sobre a personalidade manipuladora de Hitler; outra, bem diferente, é comprovar visualmente a evolução de seu gestual e de sua autoconfiança. O resgate da expressão nacionalista “Alemanha acima de tudo” (Deutschland über alles), originalmente uma canção popular de 1841 usada mais tarde como slogan nazista, é particularmente incômodo ao público brasileiro – um lembrete preocupante que faz paralelo com a realidade atual do País.

ALEMANHA Hitler e os generais: arrogância do líder foi sua ruína (Crédito:Divulgação)

Entre as séries, a mais interessante é “Grandes Momentos da Segunda Guerra em Cores”. Apesar do título burocrático, é um documento incrível por sua objetividade e pelas imagens inéditas reunidas a partir de acervos cedidos por pesquisadores em todo o mundo. A partir daí, tem-se uma linha do tempo onde o desencadeamento dos eventos é lógico e de fácil entendimento. A simplificação é inevitável em um fato histórico tão complexo quanto a Segunda Guerra, mas não há, dentro dos limites, detrimento da correção histórica. O que garante essa isenção são os comentários de acadêmicos de diversas nacionalidades, incluindo americanos, ingleses, russos, alemães e italianos.

75 anos do fim

Com mais de dez horas de duração, a série conta também com cenas filmadas por grandes nomes do cinema americano – conteúdo que gerou “Five Came Back” (box abaixo). Impressionados com o poder das imagens de Leni Riefenstahl, o exército americano literalmente recrutou os maiores nomes do mercado para criar seus próprios instrumentos de propaganda. Os cinco diretores eram John Ford, William Wyler, John Huston, George Stevens e Frank Capra. “Já naquela época, Hollywood sabia que tinha em mãos uma arma ou ferramenta incrivelmente influente”, afirma o diretor Steven Spielberg, um dos entrevistados. Estão disponíveis também os 13 documentários originais citados na série, incluindo “A Batalha de Midway” (John Ford), “Memphis Belle: A Fortaleza Voadora” (William Wyler), “Relatório das Ilhas Aleutas” (John Huston) e “Campos de Concentração Nazistas” (George Stevens). O mais curioso deles é, sem dúvida, “A Batalha da Rússia”, de Frank Capra. É praticamente uma peça de propaganda russa, onde o diretor desfila elogios às riquezas do país e à coragem do seu povo. Nem o presidente russo Vladimir Putin conseguiria fazer um filme tão positivo sobre a Rússia – prova de que os EUA valorizavam, e muito, a aliança com o poderoso Exército Vermelho. Fica demonstrado também como a guerra influenciou a carreira dos cineastas quando eles voltaram para casa, repletos de sequelas psicológicas e, em alguns casos, também físicas: John Ford foi atingido por estilhaços de bala e caiu no alcoolismo; William Wyler, que filmou batalhas aéreas a bordo dos barulhentos B-25, ficou surdo. Famoso por filmes leves antes da guerra, George Stevens nunca mais filmou uma comédia em sua vida. Após ser designado para filmar a libertação do campo de concentração de Dachau e os horrores do Holocausto, jamais encontrou inspiração para sorrir novamente.

Se Wyler filmou cenas aéreas e Capra produziu relatos inspiradores, coube a George Stevens e John Ford filmarem o maior acontecimento isolado do conflito: o Dia D. As cenas foram tão impactantes, com tantas baixas americanas, que sua exibição ficou proibida durante décadas. Se Stevens cobriu a maior atrocidade da guerra, os campos de concentração, coube a ele também filmar a mais bela de todas as cenas: a rendição dos nazistas na França e a libertação de Paris, onde as tropas aliadas e o general Charles De Gaulle foram recebidas pelo povo francês em meio à festa na mais bela das capitais europeias. Apesar do impacto que a guerra teve sobre esses cineastas, ainda assim eles tiveram mais sorte do que muitos integrantes de suas equipes. Ao todo, mais de uma dezena de cinegrafistas morreram em combate enquanto trabalhavam. As imagens históricas desses corajosos profissionais, porém, nos ajudam a compreender melhor as histórias do conflito nos dias de hoje, 75 anos depois de registrarem o seu fim.

 

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