VENEZA – Um novo documentário de dois israelenses vencedores do Oscar estreou nesta quinta-feira (10) no Festival de Cinema de Veneza, na Itália, com depoimentos contundentes sobre o uso de inteligência artificial para promover assassinatos em massa na Faixa de Gaza.
Intitulado “Naza”, o filme é assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos quatro autores de “Sem Chão”, vencedor da estatueta de melhor documentário no Oscar de 2025. A obra reúne relatos de mais de 20 integrantes das Forças de Defesa de Israel (IDF) e dos serviços de inteligência do país, sob condição de anonimato.
- O documentário “Naza” expõe o uso de inteligência artificial por Israel para identificar alvos e promover assassinatos em massa na Faixa de Gaza, resultando em mortes de civis.
- A obra, produzida pelo jornal britânico The Guardian, reúne depoimentos anônimos de mais de 20 membros das Forças de Defesa de Israel (IDF) e serviços de inteligência.
- O filme questiona a responsabilização e a justiça, comparando os padrões de desumanização em Gaza com eventos históricos e o “muro de negação” em Israel.
O nome “Naza” é emprestado de uma sigla militar usada pela inteligência israelense para indicar o número de civis que podem ser mortos durante um determinado ataque aéreo. Em outras palavras, representa a unidade de medida para as chamadas “baixas colaterais” da guerra.
Produzido pelo jornal britânico The Guardian, o longa é fruto de três anos de investigação e o único documentário em cartaz na competição principal do Festival de Veneza. “Naza” foi incluído de última hora na lista de concorrentes ao Leão de Ouro. A obra descreve em detalhes como a vigilância em massa na Faixa de Gaza, onde toda a rede de telecomunicações é monitorada por Israel, foi combinada com tecnologia de IA para identificar alvos.
Como a IA é utilizada no conflito?
A inteligência artificial decide com certa autonomia se deve ou não atacar determinada residência. Exemplos citados incluem a morte de um dirigente do Hamas, que pode custar a vida de uma família com seis crianças, e a destruição de um prédio, que pode resultar em até 50 mortes de civis.
Em determinado momento do filme, um dos entrevistados questiona: “Eu acho que os nazistas são maus, então o que eu sou?”. Abraham e Szor, em coletiva de imprensa em Veneza, nesta quinta-feira, afirmaram que “existem muitas diferenças, é claro, entre o Holocausto e o que está acontecendo em Gaza, mas uma coisa consistente nesses casos é a questão da responsabilização e da justiça, que é fundamental para avançarmos”.
O que dizem os autores e as implicações?
“O que é certo é que os padrões de desumanização são semelhantes”, acrescentaram os autores. Segundo Abraham, o “muro de negação” em Israel é “espesso e resistente demais para ser penetrado ou atravessado”, e o documentário não deve provocar efeitos sobre o premiê Benjamin Netanyahu em vista das eleições legislativas de 27 de outubro.
“O tema do massacre dos palestinos, sobre o qual falamos no filme, não está exatamente em discussão nas eleições em Israel”, salientou Abraham.
A guerra em Gaza foi deflagrada por atentados do Hamas que mataram mais de 1,2 mil pessoas em Israel, em outubro de 2023. Os bombardeios e a incursão terrestre contra o enclave palestino deixaram mais de 73 mil mortos e 174 mil feridos, além de transformar o território em uma pilha de escombros. (ANSA)
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