Edição nº2555 07/12 Ver edições anteriores

Do contra

Lúcio casou com Glorinha em 1985.
Ela, coitada, já sabia do problema do marido desde que começaram a namorar, mas achou que com o tempo mudaria.
Não mudou.
– Esse aí gosta é de ser do contra — ela assumiu num jantar com os amigos, numa noite que o marido disse que o FHC não prestava.
“E não presta mesmo. Comunista enrustido!”
Lúcio era mesmo do contra, desde criança. Todo mundo sabia.
– Quando o Lucinho nasceu não chorou, deu risada. — dizia a mãe, brincalhona.
Em tudo Lúcio era assim, não só na política.
“É fácil culpar essa Richthofen…mas tem que ver o que os pais fizeram com ela…”
Glorinha pediu para ele nem repetir aquilo em público.
Foi assim no tempo do Lula.
O pessoal todo votou no PT, para alternar o poder.
Ele não.
“Esse sujeito é safado desde que era sindicalista. Vocês vão ver. É só esperar.”
Quando os primeiros indícios do mensalão apareceram, alguém lembrou que o Lúcio bem que tinha avisado.
Mas ele já estava em outra.
“Vocês piram nessa história de corrupção, né? Ô meu Deus. Isso tem no mundo todo. E de mais a mais, tem que arrumar alguma coisa para Polícia Federal fazer.”
A partir desse dia Lúcio virou petista de usar camiseta
do Chê.
“José Dirceu é um injustiçado. A História vai mostrar.”
No impeachment da Dilma, Glorinha foi para a Paulista.
Ele também.
Mas em passeatas contrárias.
Virou um sujeito tão chato que quando chegava no bar, os amigos arrumavam uma desculpa e iam embora.
Glorinha, coitada, aguentava firme. Ou tinha se acostumado.
– Parece que vocês não conhecem esse aí. É sempre do contra.
“O bom do Temer é que experiência conta muito nessa hora de transição”, defendeu o presidente depois da gravação da conversa com o Joesley.
Veio a Copa.
“Sete a um acontece, caceta! Demos azar.”
Quando as suspeitas sobre as relações do Trump com a Rússia apareceram, Lúcio defendeu:
“Vocês podem falar o que for, mas olha só o que o Trump está fazendo com a economia. Tá bombando. O cara sabe das coisas.”
E os amigos desistiam de argumentar.
Nas redes sociais virava e mexia começava um post com “Vou ser advogado do diabo aqui…”
Pronto.
Toca mais uma opinião do contra.
Quando aconteceu a intervenção no Rio, Lúcio insistia:
“Digam o que vocês quiserem, mas não tem crime que tire o charme do Rio.”
Vieram as eleições.
“Muita burrice de vocês, metem o pau em pesquisas. Coisa de quem não entende como são feitas.”
Bolsonaro começou a disparar na liderança, para alegria da turma do futebol de quinta.
Não deu outra. No boteco depois do jogo, Lúcio disparou:
“Esse Bolsonaro é fascista.”
– Mas Lúcio…você vai votar em quem então?
“Tô entre o Daciolo e o Boulos.”
Nem responderam.
Era o Lúcio sendo o Lúcio.
Bolsonaro ganhou e começou a divulgar os ministros.
“Esse Moro…sei não. Sempre tive um pé atrás com ele.”
Quando saiu a notícia da venda de um lote de mais de 800 garrafas de vinho do Paulo Maluf, por mais de três milhões de dólares e que poderia ser lavagem de dinheiro, Lúcio argumentou.
“Era só o que faltava. Agora o sujeito não pode gostar de vinho que é corrupto?”
Mas foi outro dia que a coisa pegou de vez.
Num almoço de família, Lúcio revelou:
– Gente, fechei o pacote de Reveillon!
Pausa tensa, porque todo mundo conhece o Lúcio.
– Venezuela! Vocês vão ver só como esse povo é exagerado.
Depois de trinta anos de casada, Glorinha saiu de casa e foi morar uns tempos com a mãe.
– Esse aí não muda.

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