Divórcio parental: separação não é principal causa de depressão em filhos

Transtornos e vícios dos pais impactam mais na depressão dos filhos do que o divórcio, revela pesquisa com 128 mil adultos

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Um novo estudo abrangente, realizado com mais de 128 mil adultos nos Estados Unidos, revela que filhos de pais que se divorciaram durante a infância apresentam maior probabilidade de desenvolver depressão na vida adulta. Contudo, a pesquisa, publicada na revista Psychiatry Research, sugere que a separação conjugal, por si só, pode não ser o fator central dessa associação, indicando que transtornos mentais e uso de substâncias pelos pais exercem influência mais significativa.

Na análise inicial do estudo, adultos que haviam passado pelo divórcio dos pais antes dos 18 anos apresentaram 41% mais chance de relatar um diagnóstico de depressão ao longo da vida em comparação com aqueles cujos pais permaneceram casados. A prevalência foi de 19,2% no primeiro grupo e de 14,1% no segundo.

A diferença, no entanto, diminuiu quando os pesquisadores consideraram outras condições presentes no ambiente familiar. Mais de um em cada cinco participantes que haviam vivenciado o divórcio dos pais relataram ter crescido com um deles enfrentando algum transtorno mental, contra um em cada dez entre aqueles cujos pais permaneceram casados. Problemas relacionados ao uso de substâncias também foram mais frequentes no grupo de filhos de pais divorciados: 35% contra 15%, respectivamente.

O contexto da separação importa

Segundo Arthur Vaciloto, psicólogo do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, isso não significa que a separação seja indiferente para os filhos, mas indica que é preciso considerar o contexto em que ela acontece. “A depressão e outros transtornos mentais são multifatoriais. Dificilmente será possível isolar e identificar uma única causa. Um ambiente instável e inseguro para a criança com certeza pode ser mais prejudicial para sua saúde mental do que o divórcio em si”, comenta o psicólogo.

Vaciloto explica que, se, por exemplo, a criança constantemente presenciar brigas e discussões entre o casal, a separação pode significar que as brigas irão parar de acontecer em casa, gerando até mesmo alívio. Para ele, também é importante lembrar que o divórcio raramente começa no momento em que o casal formaliza a separação. “Por muitas vezes, o divórcio é uma formalização de um processo que acontece há algum tempo. O impacto na formação dos filhos está diretamente relacionado à maneira como os pais conduzem a separação”, diz o psicólogo.

Em famílias marcadas por discussões frequentes, o casal permanecer junto não necessariamente significa preservar a criança. A exposição constante aos conflitos pode aumentar o estresse e influenciar a maneira como ela aprende a lidar com os próprios problemas. “Pode ocorrer uma normalização da violência verbal ou até mesmo física, uma vez que as figuras de referência da criança estão resolvendo os conflitos de maneira violenta e pouco adaptativa”, explica Arthur Vaciloto. Segundo o psicólogo, ao observar esse comportamento repetidamente, a criança pode passar a reproduzi-lo em outras relações e contextos, como na escola.

Como a idade da criança influencia?

O impacto da separação dos pais também varia conforme a idade e a capacidade da criança de compreender o que está acontecendo. Nas menores, podem surgir irritabilidade e regressões em comportamentos já superados; em outras fases, ansiedade de separação e mudanças de comportamento podem chamar atenção.

Como proteger a saúde mental dos filhos?

Por isso, a maneira como os adultos conduzem a separação pode ajudar a proteger a saúde mental da criança. “É importante frisar que se trata de um processo entre o casal, eximindo a criança de ter culpa no que está acontecendo, e reforçar que, apesar da nova configuração familiar, ambos continuarão emocionalmente disponíveis e presentes”, orienta Arthur Vaciloto.

O psicólogo ressalta que também é fundamental evitar colocar os filhos no centro das disputas, expô-los a brigas ou tentar fazê-los tomar partido. Ele alerta que, se surgirem sinais como alterações persistentes no sono, dificuldade de alimentação, perda de interesse por atividades habituais de que a criança gostava, talvez seja necessário buscar apoio profissional. “É extremamente importante que haja um canal de diálogo estabelecido entre o filho e os pais, sinalizando não haver problema em não estar se sentindo bem com a mudança e de que, independentemente da separação, seus pais sempre estarão presentes”, conclui.

Da IstoÉ com Agência Einstein