Da IstoÉ com Agência Brasil
A dívida pública dos Estados Unidos (EUA) atingiu a marca histórica de US$ 40 trilhões pela primeira vez, impulsionada por uma combinação de fatores. Economistas apontam a redução de impostos para os ricos, a inflação decorrente da guerra no Oriente Médio – que elevou o preço dos combustíveis – e as tarifas de importação impostas pelo governo de Donald Trump como as principais causas para este recorde.
- A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões, o maior valor já registrado na história do país.
- As principais causas incluem cortes de impostos para os ricos, inflação da guerra no Oriente Médio, tarifas de Trump, elevados gastos militares e aumento dos juros da dívida.
- Apesar do montante, especialistas rejeitam risco de insolvência devido à emissão da própria moeda e ao status do dólar, mas alertam para o “risco Trump” e a pressão sobre juros no Brasil.
Além desses elementos, os economistas consultados pela Agência Brasil também destacam os elevados gastos militares, que se aproximam de US$ 1 trilhão, e o expressivo aumento dos gastos com juros da dívida, que alcançaram US$ 1,1 trilhão. Este montante é mais que o dobro do registrado em 2021, quando os juros consumiram US$ 419 bilhões dos contribuintes.
Entre as justificativas para o encarecimento dos juros, figuram a inflação provocada por conflitos bélicos e o que é denominado “risco Trump”. Este último é motivado pela política externa agressiva da Casa Branca, que gera incertezas no mercado, exemplificado pelo embate tarifário com o Canadá. Especialistas sustentam que tais políticas elevam a remuneração exigida pelos títulos do Tesouro estadunidense.
Apesar da cifra de US$ 40 trilhões, que dobrou desde 2017, economistas descartam um risco imediato de insolvência para os EUA, que ocorre quando um país não consegue honrar seus compromissos. No entanto, alertam que a complexa situação fiscal da potência econômica tende a exercer pressão para que o Brasil mantenha taxas de juros em patamares elevados.
Por que os EUA não correm risco de calote?
O professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, do Instituto de Economia da Unicamp, enfatizou que o valor de US$ 40 trilhões não sinaliza risco de insolvência. Ele argumenta que, entre outros motivos, os EUA possuem a prerrogativa de emitir sua própria moeda e o dólar mantém o status de principal reserva monetária global.
“Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses. E foi o que fez entre 1942 e 1951, quando travou o juro dos títulos longos em 2,5%”, explicou o professor.
Após a divulgação da dívida pública recorde, a Secretaria do Tesouro dos EUA prontamente anunciou o aumento das operações de compra de títulos no mercado. A medida prevê que a compra diária de títulos dobre de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.
O economista e doutor em história Pedro Faria ponderou à Agência Brasil que o valor de US$ 40 trilhões, por si só, “não diz muita coisa” sobre a capacidade de pagamento dos EUA. Ele comparou a situação: “A gente sempre compara com o tamanho do país e com a realidade econômica ao redor. É uma realidade das principais economias desenvolvidas estarem em déficit desde 2008”, comentou Faria, que é associado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Juros dos títulos em alta: qual o impacto?

Desde o término da 2ª Guerra Mundial, os títulos do Tesouro dos EUA são globalmente reconhecidos como o ativo mais seguro. Segundo o professor Pedro Bastos, o mercado não manifesta desconfiança em relação à capacidade de pagamento da dívida por parte dos EUA.
“Os estrangeiros continuam comprando. O que subiu foi o preço cobrado, não a recusa em comprar”, pontuou o professor. Ele acrescentou que dois terços da dívida em circulação estão em mãos domésticas nos EUA, e US$ 4,5 trilhões são detidos pelo próprio FED, o que atenua os riscos de insolvência.
Adicionalmente, US$ 8 trilhões da dívida estão em posse do próprio governo, restando US$ 32 trilhões no mercado. “O mercado detém cerca de 100% do PIB em dívida, similar ao recorde de 106% de 1946, ao fim da 2ª guerra”, detalhou Pedro Bastos.
O único cenário de calote dos EUA, segundo Pedro Paulo Zahluth Bastos, seria de natureza política: quando o Congresso se nega a autorizar a elevação do teto da dívida. Contudo, ele alertou para o problema crescente dos gastos com juros.
“O único risco ligado à dívida hoje é o de juros longos mais altos. Mas a causa imediata não é o tamanho da dívida. É a inflação, puxada pelo petróleo do conflito no Oriente Médio e pelas tarifas”, explicou Bastos.
Em apenas cinco meses, a dívida cresceu US$ 1 trilhão, superando as projeções de analistas. O Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO) estimava que os US$ 40 trilhões seriam alcançados somente em 2027.
Corte de impostos e concentração de renda
A política econômica baseada no corte de impostos para as camadas mais ricas, implementada nos dois mandatos de Donald Trump, foi um dos fatores que impulsionaram o endividamento, ao provocar uma redução na arrecadação, explicou o economista Pedro Faria.
“O Trump aposta nessa política característica dos republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia. O que se vê é um aumento do endividamento dos EUA no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica”, detalhou Faria.
Em 2025, o governo Trump aprovou um projeto que prevê mais cortes de impostos para os ricos. A medida aumentou a previsão do déficit dos EUA em US$ 4,7 trilhões em um período de 10 anos, ao mesmo tempo em que promoveu um corte de US$ 1 trilhão na saúde pública durante o mesmo período.
O professor Pedro Bastos, da Unicamp, complementou que a menor tributação dos ricos nos EUA tem contribuído também para a concentração de renda no país. Ele sugere que a dívida recorde é um sintoma do conflito pela distribuição dessa riqueza dentro dos EUA.
“A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país”, observou Bastos.
O especialista da Unicamp argumentou que os EUA não gastam excessivamente, mas sim arrecadam de forma insuficiente. A carga tributária no país é de aproximadamente 25% do PIB, cifra inferior à média de 34% observada na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que engloba as nações mais desenvolvidas do mundo.
O que significa o “Risco Trump” para a economia?
Para o especialista Pedro Faria, do Instituto Economias, a preocupação do Tesouro dos EUA reside na tendência global de governos, estados e empresas de reduzir a utilização de títulos dos EUA como opção para manter a liquidez econômica.
“Diversos governos têm reduzido o estoque de títulos dos EUA, como Brasil e China. Isso porque veem a política econômica da Casa Branca como errática e não muito racional. Os agentes econômicos têm medo de se expor a sanções ou ter os ativos congelados, como ocorreu diversas vezes”, comentou Faria.
Para o economista Pedro Bastos, da Unicamp, os juros mais elevados cobrados pelos títulos dos EUA representam a resposta do mercado aos ataques do governo Trump. Ele aponta que Trump tem fragilizado pilares que conferem confiança a esses papéis: a autonomia do FED, a independência dos tribunais judiciais e o tratamento de aliados como parceiros estratégicos.
“Por exemplo, o uso do acesso ao mercado americano como chantagem [tarifaços]. Os bancos centrais compram ouro em ritmo recorde desde 2022 por isso, não pelo tamanho da dívida. Se a dívida um dia virar problema, não será por chegar a US$ 40 trilhões ou US$ 50 trilhões. Será porque a política destruiu o que a tornava desejada”, complementou Bastos.
De fato, é o “risco Trump” que pressiona o rendimento dos títulos públicos de 30 anos dos EUA, que atingiram 5,33% em 18 de agosto, o maior patamar desde 2007. Este nível elevado de juros nos títulos de longo prazo é o principal fator a pressionar os gastos com a dívida do país norte-americano.
Apesar dos juros mais altos exigidos pelos títulos de longo prazo do Tesouro dos EUA, Pedro Bastos avalia que o mercado continua investindo nos papéis do Estado norte-americano.
“A China reduziu o estoque de títulos dos EUA de US$ 1,3 trilhão, em 2013, para US$ 700 bilhões, e nada aconteceu. O dólar ainda responde por 57% das reservas mundiais, o euro por 20% e o yuan por 2%”, ponderou Bastos.