Comportamento

Diversidade sexual

O que leva muitos brasileiros à resistência e a não democrática aceitação de gêneros que saiam da padronizada definição de homem e mulher

Crédito: Arquivo pessoal

FAMÍLIA Ricardo Reis (à dir.) e Léu Vieira (à esq.) vencerama a discriminação e a burocracia para adotarem os filhos: amor além do sangue (Crédito: Arquivo pessoal)

Homem é homem e mulher é mulher. Certo? Errado. Se muitos brasileiros ainda pensam dentro desse rígido dualismo, é porque são, segundo sociólogos e psicólogos sociais, desprovidos de empatia. Dessa forma, resistem àquilo que não lhes é igual. Pior: tal comportamento implica reacionarismo. Pior ainda: se a falta de empatia e as atitudes reacionárias levam alguém a opinar sobre a vida do outro, ultrapassou-se todos os limites éticos. É mais do que falta do que fazer: é possuir um temperamento autoritário, falso moralista e antidemocrático. Esse fenômeno, que leva a radicalismos, atinge os planos econômico, racial, étnico, político, ideológico e, principalmente, o de gênero. Explica-se, assim, o ódio gratuito que ainda é comum ver-se pelos casais LGBTs. E, também se explica, a violenta reação nas redes sociais contra o ator e homem trans Thammy Miranda, pelo fato de ele ter integrado uma campanha publicitária destinada ao Dia dos Pais para a marca de cosméticos Natura. Thammy foi um dos assuntos mais comentados no Twitter. Muita gente mostrou-se inconformada e revoltada porque ele tem um filho fruto de inseminação. “Ninguém precisa me agredir porque é diferente de mim”, disse Thammy à ISTOÉ. “É tão surreal não existir respeito que eu fico sem palavras para explicar o que deveria ser natural”.

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PAI É PAI Lorenzo Vincenzo é homem trans. Ajuda a esposa a criar os filhos que ela teve com outros dois homens: abandono dos pais biológicos (Crédito:Claudio Gatti)

Houve um tempo em que corpos eram queimados em fogueiras e em praças públicas quando não se coadunavam ao padrão que a sociedade impunha — no qual só entravam famílias formadas por homens e mulheres que psicologicamente e emocionalmente se identificam com o gênero com o qual nasceram e que hoje ganharam a denominação de cis. Para bem da democracia social, o tempo foi andando e algumas conquistas nesse campo dos direitos civis estão sendo consolidadas. “A orientação sexual já foi vista como pecado, crime e doença”, diz Toni Reis, presidente da Aliança Nacional LGBTI+. Em 2005, ele e o marido, David Harrad, resolveram aumentar a família. Iniciaram o que seria a “gravidez” mais longa da história: adotar filho sendo um casal homoafetivo. Ao longo de uma década sonharam com a família ao mesmo tempo que lidaram com a burocracia da Justiça: “Queria que os preconceituosos ficassem um mês na nossa pele para entender o que sentimos”. Situação similar ocorreu com Ricardo Reis e Léu Vieira. “Nossa sociedade é marcada pelo preconceito: machismo, racismo e intolerância em diversos aspectos. Isso é medo do novo”, diz Ricardo. “Desde pequeno somos educados a ter medo e esse fato liga-se a tabus”.

“Você não precisa me agredir porque é diferente de mim” Thammy Miranda, ator

Divulgação

A cada momento a falta de empatia com a vida do outro é reafirmada por muita gente no Brasil — fenômeno que, felizmente, tende cada vez mais a deixar de existir. Impõe-se que o outro seja como eu sou, e, quando o avanço e as discussões plurais ganham força, reacionários resistem para que a sociedade seja um aglomerado de iguais — homogênea e arcaica. “Do ponto de vista psicológico, falta empatia a muitos brasileiros. Falta pensar nas consequências que um comentário maldoso pode ter na vida de alguém”, diz Sheila Queiróz, psicóloga da conceituada Clínica Maia e especializada em saúde mental. “As crianças precisam ser educadas para o diferente não ser visto como ruim”. É assim que a plena existência poderá ser alcançada, uma vez que sociedades igualitárias somente são possíveis quando as liberdades e garantias individuais forem respeitadas. “Apesar do ditado de que não há pecado abaixo da linha do equador, temos fortes estruturas de violência contra as minorias”, diz Renan Quinalha, professor de Direito da Unifesp. “E a democracia pressupõe garantia de direitos individuais”.

Genitor não é pai

A transexualidade significa o gênero com o qual uma pessoa se identifica, não importando os seus órgãos reprodutores. No caso de Thammy os ataques, ainda que absurdos, não saíram das redes sociais. Mas, na chamada vida real, a coisa é tristemente bem diversa e o Brasil tem pouco de positivo. O nosso País lidera de maneira trágica e vergonhosa o ranking das nações nas quais mais se matam transexuais em todo o mundo. Aqui, alguém assumir a sua vontade sexual, saindo do padrão, implica risco de morte e violência. “O órgão sexual não define gênero. E ser pai é diferente de ser genitor”, diz Lorenzo Vincenzo, homem trans casado com uma mulher cis, que, antes de conhecê-lo, cuidava sozinha dos filhos – cada criança é biologicamente fruto de diferentes relações. A democracia, na mais ampla dimensão humana, pressupõe a não resistência às escolhas da outra pessoa. A melhor forma de caminhar para isso é seguir o que nos ensinou a escritora e poeta americana Maya Angelou: “Nenhum de nós pode ser livre até que todos sejam livres”.

 

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