A ditadura no Paraguai, comandada pelo general Alfredo Stroessner, destaca-se como a mais longeva da América do Sul, perdurando por 35 anos, entre 1954 e 1989. Durante esse período sombrio, o regime autoritário foi responsável por graves violações de direitos humanos, incluindo prisões arbitrárias, torturas e exílios.
O que aconteceu
- A ditadura no Paraguai, sob o general Alfredo Stroessner (1954-1989), foi a mais longa da América do Sul, marcada por 35 anos de repressão.
- O regime foi responsável por graves violações, incluindo tortura, exílio e assassinato, com destaque para a perseguição de pessoas LGBTQI+, como Bernardo Aranda.
- A história de Aranda foi adaptada para o cinema no filme “Quem Matou a Narciso?”, que resgata a memória do período e impulsiona o cinema paraguaio no cenário internacional.
Durante esses 35 anos de governo, o regime de Stroessner prendeu arbitrariamente ou de forma ilegal quase 20 mil pessoas, torturou 19 mil e matou 60. Além disso, 3,5 mil precisaram ser exiladas, segundo dados divulgados em 2003 pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai. Entre os grupos que mais sofreram violações nesse período estavam os formados por pessoas LGBTQI+.
Um dos casos mais emblemáticos dessa violência foi o assassinato do jovem Bernardo Aranda, em 1959, um locutor de rádio homossexual que amava o rock and roll e que foi queimado enquanto dormia.
O crime jamais foi solucionado, mas, para a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia, o assassinato pode ter sido tramado pelo governo militar.
Quais as marcas da violência na ditadura de Stroessner?
A história de Aranda acabou inspirando o livro Narciso, escrito pelo escritor e jornalista paraguaio Guido Rodríguez Alcalá e que agora foi adaptado ao cinema pelo diretor Marcelo Martinessi.
Chamado Quem Matou a Narciso?, o filme conquistou recentemente o Prêmio de Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim e foi exibido esta semana dentro da competição de filmes sul-americanos do Bonito CineSur, festival de cinema que ocorre em Bonito (MS) até este sábado (1º/8).
“Esse crime nunca foi esclarecido até hoje. Por isso, durante a apresentação [do filme no Bonito CineSur], eu falei: “Tanto no cinema quanto na vida, muitas vezes não temos respostas”. Então, no cinema também não há um desfecho, porque nós mesmos, no Paraguai, não sabemos a resposta. E este é apenas um dos muitos casos que ocorreram”, disse o ator Diro Romero, que interpreta Narciso no cinema.
Para Romero, a história da ditadura no Paraguai é muito semelhante às vividas pelos demais países da América do Sul, com “desaparecidos, torturas e mortes que, até hoje, permanecem sem esclarecimento”.
Segundo ele, apresentar essa história por meio do cinema procura transmitir a ideia de que é preciso garantir que essa violência jamais volte a ocorrer entre países sul-americanos.
“Quem Matou a Narciso?”: a arte como denúncia e memória
“Viemos do mesmo lugar. A ideia é que sejamos mais unidos. Acho que é isso que as pessoas querem, mas nossos líderes estão seguindo uma direção diferente. Estamos nos dividindo em um momento em que precisamos estar mais unidos do que nunca.”
Como o cinema paraguaio impulsiona sua narrativa?
Quem Matou a Narciso? marca um novo momento do cinema paraguaio. Nos últimos anos, o país instituiu novas políticas para incentivar sua produção cinematográfica, tais como a Lei do Cinema (2018), a criação do Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai (INAP) e o recente acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul.
O documento assinado pelo Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, moderniza regras para o setor audiovisual dos países do bloco e permite que coproduções recorram a fundos públicos de fomento dos países que compõem o Mercosul.
Para o ator, músico, produtor e membro da Academia de Cinema e da União de Atores do Paraguai, Celso Franco, o cinema de seu país só começou, de fato, a ganhar impulso após o grande sucesso de 7 Caixas (2012), filme que ele protagonizou e que chegou a atrair 300 mil pessoas aos cinemas paraguaios.
“Foi um filme que teve um impacto enorme no cinema. Foi um fenômeno — e um fenômeno decorrente de uma questão que venho analisando há muito tempo: a falta de visão do Paraguai sobre si mesmo.”
Há cerca de cinco anos, o setor de investimento ganhou impulso. “Agora temos o INAP, o Instituto Nacional do Audiovisual, que conta com fundos específicos para o cinema e vem impulsionando fortemente a produção audiovisual.”
Para ele, com essas novas políticas para o audiovisual, o cinema paraguaio poderá, finalmente, contar suas histórias. “Há muitas histórias para serem contadas.”
* A repórter viajou a convite do Bonito CineSur