Os distúrbios que atingiram cidades francesas após uma grande mobilização contra o custo de vida elevaram a tensão política no país e abriram uma disputa sobre a origem dos atos de violência. Enquanto lideranças internacionais, entre elas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, associaram o episódio à imigração, o governo de Emmanuel Macron e políticos franceses responsabilizaram grupos de extrema esquerda e criminosos.
Especialistas ouvidos pela AFP, porém, descrevem um cenário mais complexo. Segundo eles, os envolvidos nos atos violentos têm perfis diversos e os episódios refletem a polarização social e política que atravessa a França a seis meses da eleição presidencial.
Protesto social terminou em confrontos
Entre 550 mil e 800 mil pessoas participaram das manifestações de sábado, 17, segundo estimativas das autoridades e dos organizadores. A mobilização reuniu participantes do movimento dos coletes amarelos, estudantes, professores, agricultores, aposentados e ativistas, com críticas à alta do custo de vida e à situação da educação.
O protesto, majoritariamente pacífico, foi seguido por confrontos com a polícia, incêndios, depredação de prédios públicos e saques em cidades como Paris, Marselha e Limoges. Em atualização divulgada nesta segunda-feira, 19, o Ministério do Interior informou mais de 2.500 detenções e quase mil agentes de segurança feridos.
Macron reconheceu “falhas na antecipação e na inteligência” da operação policial e determinou a adoção de novos protocolos contra barricadas e saques. Em Marselha, autoridades proibiram novas concentrações e manifestações após registrarem episódios de violência na cidade.
Narrativas opostas sobre a violência
Trump afirmou que a França estaria “em chamas” em razão da imigração e defendeu o endurecimento das fronteiras. A declaração foi contestada, de forma indireta, por Macron, que atribuiu os ataques a pequenos grupos de extrema esquerda e a delinquentes.
O governo francês também apontou responsabilidade de grupos radicalizados, enquanto Jordan Bardella, presidente do Reagrupamento Nacional, partido de extrema direita, associou os atos a ativistas da ultraesquerda. A França Insubmissa, legenda de Jean-Luc Mélenchon, nega incentivar a violência e sustenta que a maioria dos participantes das mobilizações protestou de forma pacífica.
Para o cientista político Pascal Perrineau, os episódios reúnem estudantes radicalizados, militantes de movimentos revolucionários, integrantes de grupos conhecidos como black blocs e jovens de áreas periféricas, entre outros perfis. A presença de franceses de origem imigrante em parte desses grupos, segundo analistas, não sustenta a tese de que a imigração explique, por si só, os distúrbios.
Pressão sobre o governo aumenta
Além do custo de vida e das demandas estudantis, o governo enfrenta dificuldades para aprovar o orçamento de 2027, que prevê um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros. A instabilidade também pressionou os mercados: a Bolsa de Paris operava em queda nesta segunda-feira.
O movimento dos coletes amarelos anunciou novas manifestações para o próximo sábado. A perspectiva de continuidade dos protestos amplia a pressão sobre Macron, impedido de disputar a próxima eleição, e tende a aprofundar o debate entre esquerda, centro e extrema direita sobre segurança, imigração e desigualdade social.
Da IstoÉ e AFP