O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) apontou que falhas da Voepass, dos pilotos e da fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil contribuíram para a queda do avião que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. O documento, apresentado na quinta-feira, 23, lista 39 conclusões e faz recomendações à fabricante ATR e à Anac.
O que o Cenipa concluiu
A aeronave enfrentou condições de gelo severo durante a subida e por todo o trajeto. O sistema de degelo da asa direita apresentou falha, mas o problema não foi registrado em diário de bordo nos voos anteriores. A investigação identificou que a Voepass mantinha uma “cultura de normalização de desvios”, em que pilotos e mecânicos não relatavam panes para que os aviões pudessem voar no dia seguinte.
Na cabine, o sistema de monitoramento emitiu ao menos oito alertas de velocidade baixa e performance degradada, mas os pilotos não executaram os procedimentos de emergência previstos. O relatório aponta que conversas sobre assuntos pessoais tiraram o foco do monitoramento do gelo e dos instrumentos.
Quando a aeronave perdeu sustentação e entrou em estol, o copiloto agiu de forma contrária aos manuais: puxou o manche em vez de empurrá-lo, o que agravou a situação. O avião entrou em parafuso chato, completou cinco voltas sobre o próprio eixo e caiu a 14 mil pés por minuto — o equivalente a quatro quilômetros por minuto.
A investigação também concluiu que o avião não poderia ter decolado, porque o limpador de para-brisa estava com defeito e havia previsão de chuva no horário do voo.
Fiscalização da Anac
O Cenipa apontou que auditorias da Anac identificaram “diversas não conformidades” na manutenção das aeronaves da Voepass e na prática de reporte informal de panes, mas as constatações não foram suficientes para mitigar os riscos. O órgão concluiu que as falhas na fiscalização permitiram a continuidade das operações apesar da degradação da segurança. A Anac informou que analisará as recomendações em até 120 dias.
Recomendações à ATR
Quatro recomendações foram direcionadas à fabricante francesa, por meio da agência europeia de aviação: revisar o alerta de performance degradada para exigir ação imediata dos pilotos; aprimorar as regras de voo em condições de gelo; incluir na caixa-preta dados como falhas no degelo e posição dos manches; e reavaliar o sistema de monitoramento para melhorar a percepção da tripulação sobre a gravidade das condições.
O que diz a Voepass
A companhia afirmou que a queda do voo 2283 foi o episódio mais difícil de sua história e que sempre adotou procedimentos sérios de segurança. Disse que a tripulação era experiente, com mais de 5.000 horas de voo, e que colabora com as investigações desde o início.