Partido de Marina Silva vive crise interna, perde deputada e pode sofrer debandada

Os imbróglios teriam começado em discordâncias sobre o apoio a Lula (PT) durante o ano eleitoral. Marina Silva pode disputar uma vaga no Senado por outro partido.

Foto: Iury Carvalho / Reprodução / Redes sociais
Foto: Foto: Iury Carvalho / Reprodução / Redes sociais

A Rede Sustentabilidade vive, desde 2022, uma divisão expressiva entre o grupo da fundadora do partido, a Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, e a ala liderada pela ex-senadora Heloísa Helena, que culminou na vitória da oposição no congresso da legenda, ações judiciais e, mais recentemente, saída de aliadas como a deputada estadual Marina Helou – agora integrante do PSB (Partido Socialista Brasileiro).

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A cronologia da crise

A gênese da divisão interna ocorreu em 28 de abril de 2022, quando uma parcela significativa do partido, durante o período em que o senador Randolfe Rodrigues, hoje no PT, ainda enquanto líder da legenda, declarou publicamente apoio à candidatura do então presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Em entrevista à IstoÉ, o porta-voz do partido, Paulo Lamac, disse que esse movimento causou profundo descontentamento no grupo de Marina Silva. “A Marina ficou muito incomodada com isso, porque naquele momento ela estava pré-candidata a vice do Ciro Gomes”, declarou Lamac.

Lula Marina Guajajara

A falta de apoio de Heloísa Helena aprofundou o racha entre os grupos.

Segundo Paulo Lamac, o imbróglio teve mais camadas e começou antes do Congresso Nacional, em meio a tensões internas e acusações de tentativas de sabotagem para encarecer ou dificultar a realização do evento.

“O grupo da minoria usou tanto em 2023 quanto em 2025 a estratégia de tentar impedir a realização do congresso evitando a contratação de fornecedores, como passagens aéreas e hotéis”, disse à IstoÉ.

Quando o congresso ocorreu, ainda em 2023, o grupo liderado por Heloísa Helena venceu a disputa interna com cerca de 55% dos votos, deixando a ala da ministra Marina Silva em minoria, com aproximadamente 45%. Na ocasião, Heloísa Helena e Wesley Diógenes foram eleitos para a direção do partido.

Em 2024, durante as eleições municipais, o clima de conflito dentro da legenda prosseguiu. O grupo de Lamac acusou Marina Silva de apoiar candidaturas em Minas Gerais sem o aval da direção nacional e de redirecionar recursos eleitorais originalmente destinados a São Paulo para outras unidades da federação.

As tensões se acirraram em 2025, quando o congresso municipal da Rede no Rio de Janeiro aprovou uma reforma estatutária que concentrou poderes na Executiva Nacional, fortalecendo o grupo de Heloísa Helena. No congresso nacional realizado em abril do mesmo ano, Paulo Lamac foi eleito porta-voz nacional com ampla maioria, consolidando a derrota da ala de Marina Silva, que passou a contestar o processo na Justiça e conseguiu, no fim do ano passado, uma liminar anulando o congresso municipal do Rio.

Segundo Lamac, a derrota foi o ponto-chave para que o grupo adversário passasse a contestar o resultado na Justiça, estratégia que classificou como “lawfare”. De acordo com ele, foram abertas, pelo grupo adversário, diversas ações judiciais para tentar impedir posses, reuniões e decisões internas do partido.

“É uma violência institucional e um abuso de poder econômico que está sendo praticado, mas que até o momento não teve consequência prática. Estamos falando de pessoas que detêm mandatos, relacionamentos e estão em ministérios. Há assessores do governo federal e do Ministério do Meio Ambiente diretamente envolvidos com o poder. Então é uma estratégia muito pesada de judicialização”.

Em 29 de janeiro de 2026, a Justiça confirmou a anulação do processo ao identificar fraudes no credenciamento e na convocação do evento, o que também suspendeu os encontros estadual e nacional que haviam garantido a vitória do grupo adversário. Apesar disso, aliados de Heloísa Helena mantiveram as decisões internas do partido, ampliando o conflito. A atual direção do partido apresentou um recurso. Segundo Lamac, “não cabe ao juiz do Rio de Janeiro ingerir num processo nacional”.

No início de março deste ano, enquanto a Rede Sustentabilidade renovava sua federação com o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), a crise ganhou novo capítulo com a saída da deputada Marina Helou para o Partido Socialista Brasileiro (PSB). A parlamentar citou “insegurança jurídica” e o que chamou de tomada autoritária do partido — movimento que intensificou especulações sobre uma possível desfiliação de Marina Silva.

De saída, Marina Helou expõe conflitos

A saída de Marina Helou do partido já era prevista. A parlamentar, assim como sua aliada Marina Silva, vinha sendo sondada desde o ano passado para se filiar ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). À época, Helou recebeu um convite para integrar uma chapa do partido, mas optou por permanecer na Rede Sustentabilidade. A mudança só se concretizou agora, no início de março, quando a deputada aproveitou a janela partidária para deixar a Rede e oficializar sua filiação ao PSB.

Em entrevista à IstoÉ, Helou detalhou alguns de seus incômodos com o antigo partido — do qual é uma das fundadoras em São Paulo — e demonstrou otimismo quanto ao seu futuro ao lado de Tabata Amaral e João Campos no PSB.

À reportagem, a deputada afirmou que a atual direção teria excluído a ala minoritária (grupo de Marina Silva) dos espaços de fala e retido repasses financeiros destinados à fundação partidária.

“Eu sou profundamente grata à Rede, mas é preciso que a transferência para a fundação do partido seja paga, é lei. E até hoje isso está parado por conta de uma disputa para não pagar a fundação partidária”, declarou a deputada.

Helou também relatou que seu grupo “não tem mais espaço para falar nas reuniões” e que a não retomada dos princípios e estatutos originais da legenda geraram um cenário de insegurança jurídica. A parlamentar ainda criticou a distribuição de recursos nas eleições de 2022, dizendo que seu grupo representava 48% da executiva do partido, mas recebeu apenas 38% do fundo partidário.

Agora em nova legenda, Helou afirmou que pretende atuar em pautas ambientais, sociais e assumir a presidência da secretaria do “PSB Sustentável”. A deputada também destacou que continuará alinhada politicamente à ministra Marina Silva e declarou apoio a uma eventual candidatura dela ao Senado por São Paulo.

Possível debandada

Segundo apuração da CNN Brasil, o presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Edinho Silva, teria convidado a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, para se filiar ao partido e disputar uma vaga no Senado Federal nas eleições deste ano. Não seria a primeira vez que Marina Silva estaria no PT: ela integrou a legenda de Luiz Inácio Lula da Silva de 1985 até 2009.

Uma provável saída de Marina da Rede poderia causar uma “debandada” de parlamentares aliados a ela. A avaliação do entorno da ministra é de que ela é um “polo aglutinador” no partido, e uma eventual desfiliação poderia influenciar outros integrantes a também sair.

No entanto, Paulo Lamac disse à reportagem que não endossa a saída de Marina Silva. “Não acredito na saída da ministra, mas não posso atestar que sim ou que não. Me parece que existe um sentimento de permanência, mas isso é intuição”, declarou.