A 100 dias do primeiro turno, as pesquisas mais recentes indicam uma disputa presidencial ainda aberta, mas com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) em meio ao desgaste enfrentado pelo senador após as revelações ligadas ao caso Master e ao financiamento do filme “Dark Horse”. Levantamentos da Quaest e do Datafolha mostram o presidente na liderança das intenções de voto, com percentuais que apontam para uma ampliação da distância entre os dois candidatos.
Os dados, no entanto, não captaram dois episódios que abalaram as duas campanhas: o vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro relatando ter sido maltratada por Flávio, expondo um racha no clã, e a saída do senador Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, após entrar na mira da Operação Compliance Zero.
O que aconteceu
- Pesquisas revelam disputa presidencial aberta com Lula (PT) liderando Flávio Bolsonaro (PL) a 100 dias do 1º turno.
- Flávio Bolsonaro enfrenta desgaste por envolvimento no Caso Master e financiamento de filme, além de um racha familiar.
- Jaques Wagner (PT-BA) deixa liderança do governo no Senado após ser alvo da Operação Compliance Zero.
O Caso Master segue no centro do debate político. O material apreendido pela Polícia Federal, incluindo celulares do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, continua sob análise, enquanto duas tentativas de delação do empresário foram rejeitadas. As sucessivas fases da operação indicam que as apurações podem alcançar agentes públicos de diferentes campos políticos, sendo tratada em Brasília como uma investigação de alcance suprapartidário.
Na oposição, diálogos revelados em maio mostram Flávio Bolsonaro pedindo recursos a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai. O banqueiro chegou a transferir R$ 61 milhões para o projeto. A perda de apoio do senador foi registrada nos cenários de primeiro e segundo turno. Na Quaest, ele caiu de 33% para 29% na disputa inicial e de 41% para 38% em confronto direto com Lula. Segundo o instituto, 65% dos entrevistados consideram a atitude de Flávio um erro, e 58% enxergam indícios de irregularidades. Ainda assim, o desgaste não fortaleceu outros nomes do campo conservador, e o recuo foi mais acentuado entre eleitores independentes (de 31% para 24%) e entre eleitores de direita não identificados com o bolsonarismo (de 88% para 82%).
O governo em xeque com o Caso Compliance Zero
No governo, a inclusão de Jaques Wagner (PT-BA) entre os alvos da Operação Compliance Zero ampliou a pressão sobre o Palácio do Planalto. A investigação apura a compra de um apartamento de luxo em Salvador e repasses que somam R$ 3,5 milhões em nome de familiares do senador. Integrantes da base governista avaliavam que o caso poderia dificultar a articulação política do governo no Congresso, levando Wagner a deixar o cargo de líder na quarta-feira, 24, após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Os eleitores independentes, que representam 32% do eleitorado brasileiro, tornaram-se alvo central das pré-campanhas por serem vistos como decisivos na disputa. Segundo o diretor da Quaest, Felipe Nunes, esse grupo — que não se identifica nem com a esquerda nem com a direita — tende a priorizar temas como democracia, segurança pública, combate à corrupção e desburocratização.
Qual o peso dos eleitores independentes na disputa presidencial?
A pesquisa de junho mostrou Lula ultrapassando Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno entre os independentes, com 13 pontos de vantagem: 37% a 24%. Para Nunes, o resultado indica perda de apoio de Flávio fora de sua base mais fiel. Apesar do desgaste do senador, nenhum outro nome de centro-direita conseguiu se consolidar como alternativa competitiva — fenômeno que Nunes chama de “paradoxo da direita”.
A judicialização da disputa no TSE
Mesmo antes do início oficial da campanha, previsto para 16 de agosto, a disputa já se intensificou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dados do tribunal mostram aumento de 335% nas representações por propaganda antecipada em comparação ao mesmo período de 2022, com mais de 130 ações registradas até agora. PT e PL são os partidos que mais protocolaram representações, em acusações mútuas sobre irregularidades em peças publicitárias e conteúdos de pré-campanha.
Entre as decisões recentes, o ministro André Mendonça determinou a remoção de conteúdos contra Lula e de uma deepfake envolvendo Flávio Bolsonaro. Já o presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, rejeitou pedido do PT para barrar o filme “Dark Horse” e atendeu a ação da campanha de Flávio para suspender uma pesquisa da Atlas/Intel desfavorável ao senador, sob argumento de indícios de indução nas respostas. O julgamento sobre o tema foi adiado após pedido de vista da ministra Estela Aranha e ainda não tem data para retornar à pauta. O aumento da judicialização levou as duas campanhas a reforçar suas equipes jurídicas: Flávio contratou a ex-ministra do TSE Maria Cláudia Buchianeri, enquanto o grupo de Lula passou a contar com o advogado Ângelo Ferraro.