Um levantamento feito pela equipe Interfaces da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e publicado na revista científica GEMInIS demonstra que o ataque em redes sociais contra a população nordestina teve um crescimento de 821% na última eleição presidencial de 2022. O estudo aponta os padrões de discurso de ódio mais recorrentes.
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A pesquisa analisou o total de 282 milhões de tweets (postagens na rede social X, antigo Twitter) publicados no período de julho a dezembro de 2022. Conforme as eleições se aproximam, palavras pejorativas são associadas especificamente a “nordestinos”. Postagens com esse teor triplicaram no mês de outubro em comparação aos meses antecedentes.
Como a pesquisa foi feita
O grupo fez uso de uma inteligência artificial que possibilita os computadores a compreender e analisar grandes arquivos de texto, um PLN, técnica de processamento avançado de linguagem natural. No total, quatro técnicas são utilizadas.
O algoritmo Word2Vec, que funciona como uma espécie de mapeador de palavras, foi o principal delas. Ele permite que o algoritmo classifique uma associação entre dois termos de 0% (nenhuma associação) a 100% (significado semântico igual). Esse método possibilita a identificação de palavras repetidamente próximas em um mesmo contexto. Nordestino associado a “ingrato”, por exemplo, pode ser um padrão detectado pelo algoritmo. Os meios tecnológicos utilizados são neutros, apenas mapeiam padrões já existentes e não tece julgamentos enviesados sobre.
Em julho de 2022, palavras neutras ou geográficas eram predominantes quando mencionavam o Nordeste, como “sertão” e “interior”. Já em setembro, “pobre” foi a que mais subiu, de 57% para 67%. Em outubro, mês das eleições, surgiram pela primeira vez as palavras “ingrato”, com 64% de ligação e “analfabeto” (59%).
Outros tipos de discurso de ódio
Segundo a organização, o ano eleitoral estudado foi o terceiro consecutivo que obteve um notável crescimento de crimes de ódio cometidos em redes sociais. Casos de intolerância religiosa cresceram 522% e misoginia 184%. Os pesquisadores detalham que o preconceito contra a população nordestina se constrói como uma forma de xenofobia moderna. Do ponto de vista legal, eles observam que a aplicação da Lei Antirracismo aos casos de ataque regional ainda apresenta limitações no Brasil.
Mesmo que as plataformas tenham meios tecnológicos perfeitamente capazes de detectar determinado material problemático em suas redes sociais, a aplicação para o combate a discursos de ódio, ainda depende de decisões corporativas e regulatórias.